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domingo, 17 de agosto de 2014

BOM FUTEBOL

    É o que vem demonstrando o Cruzeiro, no campeonato nacional. Joga bem, bonito e é líder. Segredo? Nenhum. Até o Cleber Machado pôde já comentar: aproximação, toque e posse de bola, jogo rápido quando necessário, cadenciado para manter a posse de bola. Eu acrescentaria mais algumas qualidades desse time do Cruzeiro, as quais Cleber Machado não entenderia muito bem, a não ser que estivesse acompanhado de Casagrande como comentarista. Quais são?
    Marcação: nem homem-a-homem, nem por zona fixa, mas por "zona móvel". Claro, assim jogava aquela Holanda. Nesse modelo de marcação, um jogador pode dar conta de até dois adversários; Velocidade: rápida, mas com avanço em bloco de jogadores - de nada adianta ter um velocista no time se ninguém acompanhar - não precisa ser o time inteiro em bloco, mas quando um jogador corre rápido com a bola e deslancha para o ataque, então no mínimo um outro jogador deve acompanhá-lo - melhor se dois ou três assim também o fazem; a mesma recomendação anterior para quando o time está sendo atacado;
    Posicionamento: não é necessário que todos joguem em todas as posições, tal como naquele time da Holanda, mas que cada jogador cumpra com várias posições dentro de campo e se desloque constantemente - dessa forma o adversário poderá ficar confuso,  pois a maioria está acostumada com posições fixas, tanto na partida quanto na retomada de jogo.
    Há mais algumas coisinhas a serem "aprendidas".
    Recuo de bola: é melhor recuar a bola que perder a posse dela. Então não é vergonha atrasar, tocar de primeira para o imediatamente atrás de você, e mesmo recuar para o goleiro - que deve saber sair jogando. Neuer e Rogério Ceni estão aí para nos ensinar. Um toque rápido para trás, para em seguida retomar para a frente, geralmente em triangulações, é uma jogada muito eficaz para não desperdiçar lances e manter a posse de bola; portanto, a lição final: não desperdiçar lances;
    Lançamento: pode e deve ser feito. Mas não aquele "estirão pra frente" à la várzea. Deve ser jogada ensaiada, com intencionalidade de dois jogadores: daquele que lança e daquele que é lançado. Atualmente, em nosso futebol, na maioria dos lances, só há a intenção de lançar para a frente, sem que o jogador que vai ser lançado esteja devidamente preparado para tal lance;
    Impedimento: com inteligência, os atacantes nunca estarão impedidos e a defesa sempre deixará o ataque adversário em impedimento; não há segredo - é treino e disso depende um bom toque de bola e o posicionamento em zona móvel;
    Jogadas ensaiadas: fazem a diferença para qualquer time e nem é necessário que a equipe seja eximia no toque de bola. Basta treinar.

    Não acho que esse time do Cruzeiro esteja "copiando" algum estilo europeu moderno. Não. Há muitas deficiências. Nem tudo sai com perfeição. E nem mesmo os jogadores são "top" - trata-se de um elenco que pode ser considerado até bem abaixo dos grandes em geral. O que ocorre com esse time do Cruzeiro tem um nome: tradição. Sim, a boa e velha tradição do toque de bola que o futebol mineiro, em especial o Cruzeiro, manteve. Apelando um pouco para o saudosismo: Palhinha (aquele que foi para o Corinthians), Nelinho, Piazza, Dirceu Lopes, Perfumo, etc. Estes jogadores consolidaram uma tradição de jogo, baseada no toque de bola, que remonta ao tempo de Tostão, e talvez até bem antes.
    Importante lição: não seria o caso de todos os times nacionais retomarem as "lições do passado". Em história, quando se quer retirar alguma lição dela, fala-se "historia magistra vitae" - isto é, história como mestra da vida; as lições do passado, daqueles casos exemplares, para os fatos da  vida atual. História exemplar. O exemplo da História. Estamos esquecendo tudo. Também no  menos no futebol.

    PS.: quando falo em toque de bola: não apenas o passe certo, mas o toque com limite de condução, no máximo dois - como bem ensinava mestre Telê.

    Olha o time de que falo aí:
    Nelinho, Piazza, Perfumo, Darci, Vanderlei, Zé Carlos, Dirceu Lopes, Roberto Batata, Palhinha, Jairzinho e...Raul no gol. 

domingo, 16 de março de 2014

O mundo é um moinho, segundo Cartola - ou um rio que corre, cujas águas nunca são as mesmas, segundo Heráclito?

Cartola:
Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés

O Mundo é Um Moinho
fonte: http://letras.mus.br/cartola/44901/> [o negrito é por minha conta]


Heráclito (dos fragmentos):
"No mesmo rio entramos e não entramos, somos e não somos."
fonte:Os pensadores, ed. Abril, 1973, p. 90.

A música, do genial Cartola, adverte a pessoa que sair para o mundo é perigoso e imprevisível, um moinho, cujas engrenagens podem derrubar todos os nossos projetos de vida. Eu gostaria de sugerir não exatamente uma semelhança da música de Cartola com o fragmento de Heráclito, mas um complementação. Sim, o movimento, bem como o tempo, é como um rio, onde entramos e não entramos - somos e não somos, isto é, apesar da mesma aparência, minha e do rio, a essência já não é mais a mesma ("Em cada esquina cai um pouco a tua vida").
E mesmo a aparência também já não é mais a mesma, pois não percebemos a mudança no curto tempo, mas na longa duração, aproveitando aqui marginalmente o conceito de Braudel.
Mas também da vida faz parte um moinho, o engenho social no qual nos incluímos e por meio do qual atuamos. Nesse moinho ninguém deixa de passar e a cada momento um pedaço de nós se vai, transformando-nos sempre em outra coisa que não nós mesmos, apesar de lutarmos para manter a identidade, os projetos, os sonhos.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Rolezinhos: os flâneurs hipermodernos
Procura por espaços de lazer, demanda cultural reprimida, luta de classes, busca por autorrepresentação e inclusão social e política. Por todos esses ângulos os rolezinhos foram analisados e justificam-se, em grande parte.
No entanto, gostaria de abordar um ponto que me chamou a atenção: esses acontecimentos – que nos revelam e nos remetem à lógica do capital, pela sua face do consumo – podem ser compreendidos como um epifenômeno da própria ação modernizadora desta lógica. Mais simplesmente: decorrência inexorável de um capitalismo de alto consumo.
Esses acontecimentos recentes podem ser vistos como aquilo que Walter Benjamin descreveu como a ação dos flâneurs. Os jovens que vão ao Shopping "dar um rolezinho" são verdadeiros flâneurs da hipermodernidade.
Benjamin, estudando a flânerie contida na obra de Baudelaire, indica que o flâneur é inicialmente um resistente da modernidade. Gosta de misturar-se à multidão, aprecia a paisagem, sente prazer com os olhares. Obra prima em termos de poema e que pode representar essa figura é A uma passante, de Baudelaire (no livro "As Flores do Mal"). O flâneur de Baudelaire só aprecia, não se confunde com a mercadoria. Dispõe de seu tempo como quer, demora-se, abandona-se à multidão. 
No entanto, afirma Benjamin, com a proliferação irresistível de lojas e galerias  – por onde a mercadoria se expõe, de forma exuberante – o flâneur vai se assimilando à paisagem do consumo. E há mesmo uma busca de se expor tal como a mercadoria, de forma exuberante. Talvez por isso mesmo nossos jovens vão muito bem vestidos a esses eventos, independente e a despeito da classe social a que pertencem. Sim, estou afirmando que esses jovens são os flâneurs mais atuais e a diferença para com o flâneur clássico é que enquanto estes iam observar a multidão, aqueles a carregam. Por que a mercadoria implica multidão, exige olhares, suscita ebriedade. Nada como fazer coisas inebriado – tal como flertar, por exemplo.
Numa expressão metaforizada, é o Shopping que, a despeito dos donos de lojas, invoca esses jovens a irem lá. Mais que a busca por se incluírem na paisagem do consumo – dado que esses jovens representam a ponta de lança da modernidade – e pensando de acordo com o que expus, trata-se de uma correspondência tão lógica que quase "natural", vamos dizer assim. Portanto, esses jovens são os protagonistas principais que agora entram em cena, embora no Segundo Ato. Mas agora também desafiando o então consumo exclusivista, que sempre imperou por aqui, desde aeroportos e rodoviárias, passando por supermercados e até mesmo Shoppings. Se há algo que está no seu lugar são esses jovens no Shopping. Sim, evidente, pode-se criar novos espaços para a cultura e o lazer. Mas não se enganem aqueles que assim o querem: esses jovens não deixarão de ir ao Shopping.

Referências:
[1]BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire. Um Lírico no Auge do Capitalismo. Obras Escolhidas III. São Paulo, Brasiliense, 1989
[2]BAUDELAIRE, Charles. As Flores do Mal. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985 (trad. Ivan Junqueira das obras do séc. XIX de Baudelaire)

Poema de Baudelaire mencionado:

A uma passante

A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.  

Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.

Que luz... e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! "nunca" talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!


(As Flores do Mal, p. 345)

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Festa. Nem tudo é...

Sobre a Festa (fête) - ou modernamente:  "Balada"

Segundo A. Comte-Sponville, momento privilegiado, em que - antigamente - era precedido de um momento de recolhimento [como no Carnaval]; hoje em dia não há mais recolhimento - só regozijo. É por isso que as festas tendem a ser um pouco tristes ou forçadas, não fosse o álcool. Excesso permitido, senão ordenado, segundo Freud em Totem e Tabu. Quer algo mais opressivo que uma alegria programada, um excesso obrigatório? Bem, a própria festa faz esquecer isso. 

Fonte (adaptada): COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. São Paulo, Martins Fontes, 2003. p.247

Explicando.
Bebe-se muito, e cada vez mais, em festas. Alguns afirmam que é "para esquecer". Esquecer do quê? Do trabalho mal remunerado? Da traição dos amigos? Do amor perdido? Da "amolação" do chefe e dos colegas de trabalho? Da infidelidade geral das pessoas? De si mesmo, tendo em vista se considerar um fracasso? Ou beber para lembrar que é um super-homem e poder fazer tudo que se quer?
De fato, nossa vida precisa ser bem amarga para na festa - e apenas na festa - fazer tudo que não se pode. Já não foi dito que em "baladas" você se realiza, isto é, você "pode tudo"?  Sim, nas festas atuais tudo pode acontecer e mais um pouco, pois talvez na vida diária nada aconteça assim de tão interessante. O que é realmente triste. Então a vida é triste e a festa é alegre?
Na verdade, a festa tornou-se obrigatória, não para ser feliz, mas apenas para restabelecer o indivíduo como um ser normal, na segunda-feira, no trabalho. Bem, alguns não vão assim tão normais (fisicamente) ao trabalho na segunda, devido aos excessos. Mas é verdade que é assim que ele consegue manter sua integridade psicológica, ao menos até a sexta-feira. Mas é verdade também que  durante a festa a gente se diverte muito. Ou pelo menos ainda há uma aparência de felicidade, pois o tempo da celebração da vida na festa já se foi há um bom tempo.

E.T.: festinha de criança não conta, mas é nessas que - apesar da péssima música que geralmente é tocada - ainda existe um grau de verdadeira felicidade. Ao menos para os pequenos, a observar como se divertem sem nenhuma gota de álcool, embora com muito açúcar.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Perspectivas do mundo hoje. 
O Estado-nação e os movimentos independentes. O caso europeu

Após a recessão de 2008, que afetou o mundo todo inclusive Europa, volta à tona o debate sobre a independência das "regiões-nações" - pequenas regiões com demandas de cultura e língua própria, como na Bélgica, Escócia, Catalunha, País Basco, Groenlândia, etc. e também expressos em movimentos políticos, inclusive nos parlamentos locais.
Volta à tona o discurso da autodeterminação dos povos, agora como palavra-chave contra a integridade territorial e união econômico-financeira. A Europa parece ser o principal palco desse embate hoje. O que está em jogo é a União Européia. Com a interferência dos governos centrais europeus, por meio do judiciário (tribunais), esses movimentos conseguem ser contidos. Por quanto tempo? Vai depender, na minha opinião, da evolução da crise mundial instalada pós 2008.

O que há de velho nisso tudo.
Revela-se aqui a superficialidade cultural e de identidade dos estados nacionais, que não conseguem mais impor uma fachada (cultural) comum à população de um território. Antigas demandas locais são reavivadas em tempos de crise e se tornam o aglutinador de movimentos de independência - que permaneciam, até então, um tanto olvidados. O que explica, na longa duração, o caráter artificial do Estado-nação, que sempre tentou recobrir com tinta forte todas as diferenças locais no(s) território(s) onde sua força (político-militar) fez prevalecer.
O que não significa, por seu turno, que esses novos movimentos para a independência de pequenas regiões sejam totalmente espontâneos ou "naturais". No fundo, refletem distorções históricas no que diz respeito à autonomia econômica e fiscal, considerando sua inserção no Estado. Reaviva-se e fortalece-se símbolos que estavam enfraquecidos, bem como a própria língua local - como é o caso catalão. Só é possível uma autonomia política total se houver uma identidade muito forte. E é isso que as personalidades políticas, tanto à esquerda como à direita, vêm tentando estabelecer.

O que há de novo nisso tudo.
A solução desses conflitos se dará (pelo andar da carruagem) pela ação dos parlamentos locais - assentados em bases e movimentos populares,  evidentemente, dado que o voto ainda é algo que funciona - bem ou mal - contra os parlamentos nacionais. E desse choque poderá sair coisas interessantes, tal como o debate sobre um novo modelo de representação política. Sem falar nas velhas questões fiscais e de desigualdades econômicas regionais, envolvendo inclusive a pobreza - o que pode suscitar, por fim, o debate sobre o modelo de desenvolvimento econômico.
Como resultado da interação dialética entre o novo e velho, mencionados acima, o que poderemos vislumbrar são dois caminhos: 1) uma independência total dessas "regiões-nações", na base de estados nacionais; ou 2)uma autonomia razoável, com um estado político independente, mas associado ao Estado-nação principal, dado que todas essas pequenas regiões estão "enclavadas" numa região maior e, até o momento, numa relação de dependência econômica mútua. Um regime federativo? Talvez.
Considero esta última opção como a mais provável, mesmo que seja observada uma retomada econômica européia muito forte.

No resto do mundo.
A atual reestruturação do capitalismo, mesmo na Europa, demanda uma centralização dos poderes. E é isso que coloca em choque o Estado-nação contra essas micro-regiões, muitas delas não tão micros assim. Nos países que não enfrentam esse "problema", de maneira séria, o que observamos, casos como no Brasil e EUA, é o fortalecimento dos estados-membros, com o surgimento de novas lideranças estaduais. O que não quer dizer que, em um certo sentido, que o poder central tenha perdido parte de sua força. Pelo contrário, é o que se observa nos BRICs. E mesmo nos EUA o que observamos também é uma ação do governo central muito forte naquilo que conduz - ou seja, ação militar e manutenção das bases econômicas neoliberais. Ressuscita-se a ideia de "grandeza da nação", em quaisquer dos casos -  somado a um imaginário fundamentalista - no caso norte-americano. Portanto, temos um apelo nacionalista assentado em outras bases, que não aquelas que historicamente conhecemos: não se trata de construir e edificar a nação, mas sim de manter um status quo. O que é interessante é que os mesmos personagens - tanto políticos, como agentes econômicos - que defendem agora uma ação forte do Estado-nação, a sustentar as atuais bases da economia (neo)liberal, pregavam, lá nos anos 80 o fim desse mesmo estado, decretando-o como entidade moribunda. "Decretou-se" também o "fim da história", não foi? Talvez o que tenha morrido mesmo, embora dê sinais de ressuscitar, é o membro "indesejável" do monstro: sua face social. 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Morcego. Augusto dos Anjos.

O Morcego

Uma vez fomos morar um pouco mais para o interior, Vargem Grande Paulista, que naquele tempo ainda era bem pequena, e acho que não mudou muito. Minha filha, Catharina, devia ter uns dois anos, acredito. A casa era de tijolo, com reboco. O piso era também de tijolo, assentado e bem unido. Não havia forro. Fazia um frio tremendo à noite. Um dia chego da faculdade e após colocar a Catha para dormir em seu quarto, entro no meu, para fazer o mesmo. A esposa não havia chegado ainda. Leitura antes de dormir. Luz acesa. Sinto algo roçar no meu cabelo. De novo. E eis que o morcego se apresenta, "voando" por sobre minha cabeça. Bem, o resto encontrei aí nesse poema de Augusto dos Anjos. Deparei-me com ele de novo recentemente e lembrei do tal morcego, que se instalou nos interstícios do teto sem forro. A propósito apelidei-o de Lincoln. Talvez em homenagem a aquele presidente americano.


O morcego

Meia noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vêde:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

"Vou mandar levantar outra parede..."
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o tecto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

Augusto dos Anjos


Fonte: Eu e outras poesias. Augusto dos Anjos. L&PM Pocket, p. 16

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O Homem Elefante. David Lynch, 1980.
A resenha abaixo não dá revelação sobre o final da obra.

O filme de David Lynch é uma obra de arte, tanto em texto, imagem, como em reconstituição histórica. Pode se afirmar que o século XIX está bem retratado ali: o barulho do bairro industrial (periferia), na mistura de todos os ruídos, inclusive música; a sujeira; o carvão e energia; chaminés fumarentas e paisagem escura, enegrecida pela fuligem; a vida burguesa representada pelo médico; a preocupação excessiva com a ciência. Esta última, podemos certamente considerar, a idiossincrasia mais acentuada daquele obscuro século XIX.
Por meio de uma narrativa simples, mas de alta densidade, com imagética de forte carga simbólica, D. Lynch nos apresenta o "Homem Elefante", que no percurso de sua saga de anti-herói, por meio de uma antiapresentação, se dá a conhecer por John Merrick, um "Ser Humano".
Dificilmente eu conseguiria explorar aqui todos os detalhes simbólicos do filme, pois isso seria trabalho para um artigo grande. No entanto, há um em particular que denota o forte moralismo vigente - ainda - no século XIX. Ao entrar no circo, na parte de "Freaks" - as aberrações, o médico - Dr. Treves, passa por uma placa onde está escrito: "Fruto do pecado original". Ao lado, um feto ou um bebê com deformidades num pote com líquido de conservação. Pecado original, nestes termos, foi o homem ter conhecido o sexo com a mulher, tendo como resultado um "monstrinho".  Sim, claro, é uma interpretação restrita e moralista das escrituras, mas bem ao gosto do moralismo do XIX, bem ao gosto da era vitoriana, do mundo conhecido como "civilizado" e onde a sexualidade é muitíssimo vigiada e circunscrita.
Uma outra simbologia: com a máquina. Na sala de cirurgia um homem sendo operado porque ocorreu um acidente com uma máquina na indústria. Dr. Treves diz mais ou menos assim, com relação às máquinas: "...não podemos confiar nelas...". De fato, uma outra mazela do XIX, mas que no século XX se tornaria algo banalizada, apesar de mais trágico: acidentes com máquinas, resultando sempre, é claro, em prejuízo para a vida. A vantagem dos homens no XIX, com relação ao XX, é que lá ainda havia uma séria desconfiança na máquina. O século XX enterrou essa desconfiança - ao menos ideologicamente, ainda que não totalmente no senso prático - deixando de lado qualquer questionamento sobre a utilidade da máquina e da técnica. Preocupação destacada no texto dessa semana, de Peixoto Júnior, sobre a questão do homem-ciborgue, uma espécie de novo monstro hodierno.
Enfim, o que temos, é John Merrick, o "homem elefante", nascido com uma enorme deformidade por todo o corpo, que é "apresentado", "mostrado" como atração de um circo, mantido por um indiferente proprietário, que o vê apenas como um negócio. Nenhum sentimento em que haja algum afeto.
Uma vez descoberto pelo médico, Dr. Treves, John é arrancado dali e levado a um hospital, para tratamento de suas enfermidades. Há um sentimento de compaixão do médico para com John, inicialmente. O médico chega a comover-se tanto que se põe a chorar.
 No entanto,  uma vez que este é tratado como um "achado" pelo médico, "mostrado" novamente - agora a uma nova platéia, de homens da ciência - a relação parece deslocar-se para o interesse profissional. A exibição do "homem-elefante" para a platéia de cientistas: mudou algo para a platéia de circo? apenas um braço e o órgão genital, "normais". Parece haver aqui uma inversão: no circo, a curiosidade era pela deformidade; na platéia de cientistas, pela normalidade.
Ocorre que praticamente todos se interessam por John como um espetáculo: a alta sociedade, os artistas, a própria multidão - representada pelo vigia do hospital e seus "clientes".
Uma vez que demonstrou ter inteligência e discernimento sobre as coisas, John desperta cada vez mais interesse. A medida que vai se "civilizando", isto é, adotando as convenções sociais mais "normais" nos relacionamentos com os outros, vai sendo cada vez mais aceito, vai se integrando. Ganha admiração até mesmo da rainha Vitória, que agora o vê como um digno cidadão inglês. É comparado a Romeu (de Romeu e Julieta, de Shakespeare) pela atriz Kendal, numa espécie de atração platônica por John. E apesar de suas deformidades, "demonstra" grande habilidade manual, ao fazer uma réplica em papel da catedral que observa da janela. A associação com o animal, o elefante, não se dá apenas pela aparência das deformidades - também no que diz respeito à memória: John possui uma boa memória, memória de elefante, demonstrada pela recitação de partes da Bíblia e naquele momento com a atriz, quando decora uma fala de Romeu na peça e a declama. Por isso, para a atriz, John se tornou o "Romeu".
A parte do espetáculo continua - o "homem elefante" ainda é "mostrado", como advertiu a enfermeira-chefe ao Dr. Treves, numa determinada passagem. Interessante sua descrição a respeito do sentimento por John: cuidava dele, portanto, também se importava com ele - mas à sua maneira. Daí o médico refletir sobre tudo que ocorreu. Por isso mesmo, posteriormente, o médico vai refletir e fazer uma autocrítica. Evidente, não podemos entrar nos pensamentos da personagem, mas podemos até admitir que havia algo de monstro no médico, tal como Mr. Hyde em Dr. Jekyll, fazendo uma citação não muito honrosa.
Podemos arriscar a dizer que John passa a ser mais aceito por duas coisas: primeiro, quando sua forma vai sendo assimilada pelos outros - o diferente, o que causa estranheza, passa a ser melhor compreendido quando se descobre a origem das deformidades, da feiura; segundo, quando demonstra uma "normalidade" interior, uma ontologia própria ao ser humano - lê, aprecia teatro, é "cavalheiro e refinado"; uma série de coisas que já estavam contidas nele, mas não "demonstradas". Podemos pensar também naquela inversão de que fala José Gil, no texto de Peixoto Junior, o "interior abortado" do monstro, mas mostrando que ali há uma alma. E realmente John mostra a sua, expressada por ele mesmo, quase ao final do filme, quando retorna para a Inglaterra: cercado por curiosos que o confundem com um criminoso, acossado, ele grita: "eu sou um ser humano". Nada mais que justa tal reivindicação naquele intolerante século XIX.
O monstro havia mesmo de ser mostrado, a todas as platéias, para que toda sua condição fosse e pudesse ser interpretada em toda sua multiplicidade, codificada em toda sua singularidade, ressignificada, para que, ao fim, o monstruoso fosse apenas uma forma, uma externalidade, e explodisse dali de dentro o humano para as inteligências exteriores. Acredito que essa tenha sido a mensagem mais forte do filme. Talvez outras, como a de mostrar as pequenas monstruosidades que podemos cometer - cada um à sua moda, mostrando seu próprio monstro interior.

Fonte histórica: BRESCIANI, Maria Stella M. Londres e Paris no século XIX: O espetáculo da pobreza. São Paulo, Brasiliense, 1994 (1982);
Fonte citada: GIL, José. Monstros. Lisboa, Relógio D'Água Editores, 2006.