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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Os problemas atuais da ALIMENTAÇÃO HUMANA – sugestão de documentários
Gostaria de indicar aqui alguns documentários a que assisti recentemente, relacionados aos problemas da alimentação e da indústria alimentar. Assim, os comentários são apenas um indicativo, não uma resenha exatamente, visando estimular a iniciativa de reflexão sobre o assunto apresentado nessas produções. A seguir, os documentários na sua ordem cronológica de produção; ao final, acrescento um filme de ficção como sugestão sobre o assunto e  acredito seja de bastante interesse para o tema.

Super size me. 2004, EUA - Dir. Morgan Spurlock
Filme que demonstra os efeitos de uma alimentação baseada em carbohidratos de fast-food. O autor e ator se submeteu a essa dieta por 30 dias e ao final surgiram vários problemas de saúde. O mais impressionante é a velocidade com que os problemas aparecem. Evidentemente, ninguém faz suas refeições em fast-food por 30 dias seguidos (ainda), mas a experiência é uma demonstração de como uma dieta assim, com alguma frequência, pode levar o indivíduo a "contrair doenças" rapidamente - de várias ordens: pressão, níveis altos de colesterol, só para começar.
Há um tema subjacente não discutido no documentário: e quando não estamos comendo no fast-food, estamos nos alimentando bem? De nada adianta nos distanciarmos das lanchonetes se comemos "junk food" em casa - salgadinhos, comida pronta, enlatados, refrigerantes, etc. Questões: estamos evitando tudo isso? quais os níveis seguros de consumo? é melhor evitar totalmente?
Questões para um outro documentário. Mas este já nos faz pensar bem sobre efeitos decorrentes de uma dieta baseada nestes carbohidratos que, ressalte-se isso, não são todos iguais.

A carne é fraca – 2005, BRA - Dir. Denise Gonçalves; roteiro Nina Rosa Jacob
Documentário produzido pelo Instituto Nina Rosa; um dos entrevistados é o jornalista Washington Novaes. O vídeo ilustra como a produção de carne cria um forte e destrutivo impacto no meio ambiente. Ao mesmo tempo demonstra as consequências da dieta de carne sobre a saúde humana. 

Comida S/A – 2008, EUA - Dir. Robert Kenner
Esse documentário tem por base muito do que foi desenvolvido no livro "O Dilema do Onívoro", Michael  Pollan, contando inclusive com sua consultoria para a produção do roteiro.
Este documentário deixa claro que a comida do tipo fast-food não diz respeito somente às lojas de hambúrguer, mas a todo tipo de alimento processado industrialmente e de pronto uso. Por meio dos supermercados esse tipo de comida é comercializado. Estamos tão acostumados a esse modelo de comércio que não conseguimos vislumbrar outro modo de obter alimentos. Nos supermercados a comida está à pronta disposição e em abundância e variedade. Mas que tipo de comida? A maior parte não natural. Aprofundando-se na pesquisa da composição desses alimentos, encontraremos um produto em comum: o milho. O processamento desse produto resulta em amido de milho e goma, matéria-prima para uma multiplicidade de alimentos que vai do refrigerante, bolos, doces e salgados (petiscos), biscoitos, massas e até molhos e condimentos. Os produtos naturais, produzidos longe das cidades, ficam caros e mais escassos; são preteridos pelas comidas industrializadas.
O gado confinado é também abordado no filme. O confinamento é um modelo de produção cruel para os animais. No documentário fica manifesto o sofrimento dos animais, embora as imagens não sejam exploradas intensamente, nem dramaticamente. O drama dos animais é notadamente perceptível. Pouco ou nenhum espaço, alimentação exógena à natureza do animal (milho é a base), são os ingredientes para uma criação que está sempre exposta a contrair doenças. Daí o emprego maciço de antibióticos, para que o animal fique vivo. Mas isso não impede o surgimento de bactérias resistentes. Quando essa carne vai para o processamento industrial, ela é tratada com um produto à base de amônia, que tenta eliminar essas bactérias.
Há muitos outros aspectos  da indústria alimentar abordados no filme, como por exemplo, a dependência cada vez maior do fazendeiro com relação aos subsídios governamentais. Para produzir mais milho, os fazendeiros recebem empréstimos com juros irrisórios. Compra-se máquinas, equipamentos e insumos. A produção aumenta, mas o preço de venda do grão não é garantido. Pelo contrário, com o aumento da produção o preço do milho cai. Os lucros não são suficientes, assim, para pagar o que foi contraído de dívida. Os fazendeiros contraem mais empréstimos, tornando-se cada vez mais endividados. É a "praga do milho barato", como Michael Pollan enuncia em seu livro. A questão do milho transgênico da Monsanto e suas táticas de imposição desse grão também é discutida.
Enfim, o que temos ao final é uma comida inapropriada e que traz inúmeros problemas de saúde, sendo um deles a obesidade, que por sua vez acarreta outros males de difícil tratamento. Os custos para o poder público aumentam. As classes mais pobres são mais afetadas, pois são as que compram esse tipo de comida - mais acessível e mais barata.
Há um contraponto. No documentário é apresentada a fazenda Polyface, modelo proposto por seu proprietário como o oposto da indústria alimentar. Nessa fazenda os animais, vegetação e homem, interagem e são obedecidos os seus ciclos naturais. Revezamento de terras, gado que pasta e se alimenta de grama, galinhas criadas com acesso à luz natural, etc. A fazenda é uma exceção, um modelo que funcionou no passado e que agora se nos coloca como uma utopia.

O lado negro do chocolate.2010, Dinamarca - Dir. Miki Mistrati e U. Roberto Romano
Este documentário tem como tema principal o trabalho escravo de crianças. Grandes empresas da indústria do chocolate, entre elas a Nestlé, não reconhecem que esse tipo de mão-de-obra é empregada na produção de cacau - matéria-prima para o chocolate, especialmente o vendido na Europa. O tráfico de crianças para esse tipo de trabalho é realizado com a condescendência ou leniência dos governos envolvidos, tanto de um lado como de outro. As crianças são traficadas em Mali para trabalho na Costa do Marfim, um dos grandes produtores de cacau. Entrevistas com crianças e câmeras escondidas foram as técnicas que permitiram a realização do filme.
Embora não esteja associado diretamente ao problema da alimentação, o documentário revela uma faceta do comportamento da indústria alimentar: ela é irresponsável com relação à totalidade da cadeia produtiva; enquanto houver lucros, nada é questionado e se ninguém levantar nenhuma questão, nada é investigado ou inspecionado.

Muito além do peso, 2012 - BRA - Dir. Estela Renner
Esse aborda, além dos problemas do peso causado pelo consumo de produtos industrializados, a relação entre o consumidor e a propaganda, demonstrando como o marketing atua massivamente e dirigido às crianças. Um documentário bem completo, que abrange vários aspectos com relação ao problema da obesidade, embora não aprofunde muito em cada um. Podemos mencionar, entre outros:
·         influência desleal da indústria de alimentos e bebidas em decisões do governo;
·         falta de educação nutricional;
·         excesso de produtos processados na merenda escolar;
·         falta de políticas públicas para prática de atividades físicas;
·         quantidade de horas gastas em frente à TV;
·         dificuldade de acesso a alimentos mais saudáveis (naturais e frescos);
·         questão dos rótulos nos produtos, cujos ingredientes verdadeiros são escamoteados pelas grandes empresas.

Superalimentado – Açúcar. 2014, EUA - Dir. Stephanie Soechtig
Documentário pouco conhecido entre nós, apresenta os problemas relacionados à ingestão do açúcar. O mérito é demonstrar como esse problema é mundial e até que ponto estamos dependentes do açúcar, tanto física, como economicamente. Fisicamente pela ingestão exagerada, pois há açúcar em tudo, em todos os produtos e na maior parte disfarçadamente - o que nos leva ao vício do açúcar. Economicamente pela rede de indústrias que empregam o açúcar em seus produtos, seja como produto principal ou componente. Os investimentos e lucros em torno do açúcar alcançaram níveis extraordinários. Enfim, a ingestão de açúcar é equiparada a uma epidemia - difícil de se controlar e difícil de tratar.

Nação Fast-food (Fast Food Nation). EUA, UK, 2006. Dir. Richard Linklater.
Se não entendermos como uma mera ficção, o valor do filme é apresentar o funcionamento da cadeia produtiva de uma rede de lanchonete fast-food, bem como os problemas (e soluções) que envolvem o negócio. Todas as partes envolvidas no sistema, ou que lutam contra ele, estão representadas, inclusive o ponto de vista do consumidor.
Uma observação quanto ao subtítulo em português: "uma rede de corrupção". Nada como uma simples frase para tentar enganar o espectador. Quer dar a entender que o filme é uma simples ficção, tendo como pano de fundo uma rede de lanchonete. Corrupção? Ora, não há ninguém corrupto o se corrompendo no filme. O processo produtivo é realizado daquela forma mesma, dentro dos padrões legais permitidos. O que ocorre na verdade é que esses padrões legais, especialmente na área de alimentação, são muito flexíveis. Essa indústria conta com muito poder, influência, dinheiro e advogados. Estratégias para envolver o consumidor restam sem limites dentro desse universo.
Voltando à questão do subtítulo, não seria essa a primeira vez que tal ordem de coisas ocorre. Títulos de filmes em português são questionados já há algum tempo. Na minha memória o melhor - ou pior - exemplo, é o filme de Sidney Lumet, "Network", de 1976 - aqui traduzido e apresentado como "Rede de intrigas". À época o público talvez tenha sido apanhado mais desprevenido quanto a essas traduções, pois lembro-me de que muitas pessoas não associavam o filme a nenhum aspecto da realidade das redes de televisão. Ora, a imprensa e a TV ainda eram veículos inquestionáveis de difusão da informação e portanto da verdade. Pouca gente relacionava aquelas questões com problemas relativos aos fatos e às versões. O que se noticiava era um fato. Ponto. Esse debate ficou para as décadas seguintes, quando algumas questões factuais ficaram mais claras com relação às versões apresentadas pela imprensa. De qualquer forma, talvez o título não tenha influenciado tanto assim, ou talvez nada. Mas serviu para esmaecer qualquer ponta de desconfiança. E não quer dizer também que o título tenha sido criado justamente para isso. Mas no mundo das comunicações nada é inadvertido. Certamente que não.
Enfim, uma obra de ficção nunca é algo criado sem uma realidade subjacente, por mais fantasiosa que seja a obra. A verossimilhança vai depender da proposta do autor e de sua capacidade técnica para reproduzi-la. 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Piketty no Roda Viva.

PIKETTY, Thomas. O CAPITAL, no século XXI. Trad. de Monica Baumgarten de Bolle. Rio de Janeiro, Intrínseca, 2014.

Terminei de ler a Introdução deste. Geralmente gosto de recomendar livros os quais li por inteiro. No entanto, como ele participou recentemente do programa Roda Viva e agita, não só o meio acadêmico, mas o mundo todo com suas ideias, decide escrever algo.

A princípio, aos mais desavisados, o autor parece não dizer algo diferente do que já está sendo dito por aí desde a Crise de 2008: é preciso distribuir riqueza via taxação dos mais ricos. Portanto, imposto progressivo, mais pesado para as grandes fortunas. Nenhuma novidade, mas o livro é inovador em pelo menos dois aspectos:
Primeiro: justifica o por quê da taxação progressiva. Segundo o próprio autor, a solução para qualquer problema tem que apresentar seus benefícios.
Segundo: revela toda uma base de dados e estatísticas em retrospecto - portanto, apresenta-nos todas as fontes que informam e demonstram a desigualdade num quadro amplo.
A obra como um todo é inovadora porque ela trabalha e articula com as Ciências Sociais e a História - algo que não é realizado pelos economistas desde a edição de O Capital de Marx.
Por tudo isso, o alvoroço em torno do assunto da obra. Ela parece-me muito sólida ao reunir todas essas qualidades acima, a despeito de eu ter lido apenas a Introdução.
Posso dizer algo mais. Trata-se de uma introdução no estilo mais clássico das ciências sociais - nela, não só o plano da obra está apresentado, mas também suas linhas gerais de compreensão, seus conceitos e... o final da história, isto é, as conclusões.
Faltava-nos um economista assim, que citasse Mark Twain e Zola no meio do texto. Faz tempo que não leio um autor dessa plêiade, entre os economistas, claro. Dos que posso citar, nem Krugman, nem Stiglitz e nem mesmo Celso Furtado, cuja obra aprecio enormemente.

Roda Viva.
Assisti ao programa na íntegra, pela internet. Fiz anotações que não serão possíveis de reproduzir todas aqui. Mas alguns pontos são muito interessantes de serem mencionados. Então vou postar apenas algumas das questões que entendi pertinentes e importantes. Portanto, selecionei os melhores momentos do programa, numa linguagem o mais próxima possível da oral (perdoem os erros...).

Antes, a primeira coisa que gostaria de destacar é o nível dos debatedores. A impressão que eu tive até me envergonha um pouco: o entrevistado voando alto, só observando aqueles seres pequeninos lá embaixo, tentando se fazer entender numa linguagem rançosa, ultrapassada e inaudível aos ouvidos mais apurados.
O destaque negativo fica para o único economista, de fato, na mesa de entrevistadores: André Lara Rezende. Declina de plano que não concorda com o livro, ao menos em dois pontos, e nem com a tese de Piketty. Demonstrou arrogância ao fazer asserções sob a forma de verdades, tal como a tese da "fronteira tecnológica" - como alguém que pretende atribuir ignorância a aquele que está sendo inquirido. Mas Piketty deu respostas elegantes e refutou com dados concretos os axiomas colocados pelo interlocutor.

Apresentador:
-Augusto Nunes
Entrevistadores e respectivos acrônimos:
-André Lara Resende, economista, um dos criadores do Plano Real (A.L.R.);
-José Paulo Kupfer - colunista de economia do jornal O Estado de São Paulo e articulista do Jornal O Globo. (J.P.K.);
-Ricardo Ferraz - repórter do Jornal da Cultura - (R.F.);
-Robson Borges - editor de cultura do Jornal Valor Econômico (R.B.);
-Vinícius Torres Freire - colunista de economia do Jornal Folha de São Paulo (V.T.F.).
Entrevistado:
-Thomas Piketty (T.P.)


Bloco 1
Primeira questão - André Lara Rezende, resumidamente: "a riqueza/crescimento atual vêm das inovações [ele aceita a tese de Andrew Solomon, de que ultrapassamos o nível físico de investimento de capital e estamos no nível tecnológico, sendo que é que permite o crescimento], portanto, vem do capital humano. Por que se preocupar com os 1% mais ricos?"
Resposta de Piketty. "Na Belle Époque, tanto quanto agora, houve inovação, tão ou mais que hoje; isso não se modificou e o problema não é a desigualdade em si, mas a extrema desigualdade. Portanto, não é a inovação que permite os ricos serem mais ricos - o nível de desigualdade é muito alto e não seria preciso tanto assim para obter crescimento econômico. Tudo é uma questão de proporção. A desigualdade só diminuiu [na história] quando houve grandes choques políticos [interferência do Estado]. Não precisamos desse tipo de crescimento, tal qual no século XIX ou na Belle Époque.  Para crescer precisamos de mobilidade - investimento em conhecimento e educação
podem proporcionar essa mobilidade.

A questão  (2ª) que Robson Borges colocou foi interessante, pela sua reflexão. "Por que há relação da distribuição de riqueza com ameaça das instituições democráticas? Qual impacto?"
T.P.: "Por causa da aplicação do dinheiro privado nas instituições políticas democráticas, especialmente nos EUA... Dinheiro que distorce o funcionamento delas e que podia ser controlado por leis e outros mecanismos."

Questão (4ª) de Vinícius Torres Freire (Folha de São Paulo). "De onde virão as forças (democráticas) para conter o aumento da desigualdade? Nos EUA há um conservadorismo..."
T.P.:"Mas foi nos EUA que vieram respostas interessantes, em especial com relação à taxação progressiva; a história pode nos surpreender às vezes mais rapidamente do que esperamos ou imaginamos." 

Bloco2
Questão (2ª) - André Lara Rezende: "...uma vez na que estamos na fronteira do progresso tecnológico, precisamos de investimento tecnológico e não "capital físico"; precisamos hoje de inventividade e capital humano. Então há alguma funcionalidade nessas fortunas, que melhoraram a vida de todos.. . Taxar os muito ricos não aumenta a arrecadação [!] - não estaríamos então diante de uma situação mais de inveja, que qualquer outra coisa? 
T.P.: "Romênia e Bulgária têm uma arrecadação de 20% [do PIB], enquanto Dinamarca e Suécia têm 50%. Nem por isso os dois primeiros são mais eficientes... Vejamos o Brasil, que está numa posição intermediária - isso não quer dizer muito. O que determina afinal é como você organiza o sistema de taxação, se ele é transparente, aplicado eficientemente... [etc.]. Em outras palavras, como ele retorna para o país, como se organiza os gastos públicos...
[interrupção de A.L.R.] "Sim claro, mas não é melhor o governo usar o dinheiro que arrecada para financiar um bom ensino, por exemplo?
[Réplica de T.P., com gesto de concordância] "Sim - a questão não é a taxação em si, mas como ela é empregada; se pode ajudar a prover uma boa educação e bons serviços públicos, ótimo - mas é bom que se tenha um sistema fiscal bom e eficiente e bom para oferecer estes serviços - é importante que o sistema fiscal seja justo e transparente; é importante que a classe média e os pobres não paguem mais que os ricos, senão o consenso fiscal corre risco [ Tony Judt fala em risco moral - descrédito]. É importante para as pessoas que começam a vida com riqueza familiar limitada, que dependem só do trabalho; o sistema brasileiro é regressivo de muitas maneiras.

Comentário. André Lara Resende, um economista, falando na linguagem dos afetos ("inveja"), em vez de empregar a análise da racionalidade do agente econômico? Interessante. Então o mundo está "invejoso" dos muito ricos, cujo único "pecado" é o consumo conspícuo? Como ficou anão o economista nacional diante do francês...

Questão (4ª) de Vinícius Torres Freire. É preciso uma nova crítica da economia política? Pretende escrever uma?
T.P.: "Contribuo com este livro para que haja uma abordagem mais social e histórica para os problemas econômicos; os economistas passam muito tempo fazendo modelos matemáticos e esquecem  de olhar para a evolução histórica e empírica de renda e salários; tenta fazer o oposto [aos modelos matemáticos] - coleto os dados e vejo quais são os modelos simples e teóricos ou mecanismos que tentam demonstrar isso, explicar isso [renda e salários]. O sucesso do livro é porque muita gente não quer apenas as opiniões dos economistas sobre questões econômicas - os economistas então fingem ter uma ciência tão complicada que os outros não a entendem. Acho isso uma piada [sic]. Pessoas normais não devem deixar questões econômicas para os economistas, tal como renda, riqueza, capital, desigualdade e impostos. Tudo isso é importante para todos os cidadãos, e não deixando para um pequeno grupo.

Comentário. Será que V.T.F. não se deu conta de que o livro é uma crítica da economia política? E o faz isso já logo no começo, quando aborda os modelos de Malthus, Ricardo e Marx?

A seguir uma réplica de V.T.F., perguntando se faria um estudo para o Brasil - e a questão colocada por R. Ferraz em relação ao coeficiente de Gini, cujos índices não apontam diminuição da desigualdade.
Resposta de T.P. (resumidamente): "Ao considerar a desigualdade depende de qual dado se leva em conta - se o fiscal, se a riqueza, o IR... estamos colaborando com a UNB para colocar o Brasil na base de dados [WTID) - precisamos de mais informações para comparar com outros países.
A.L.R. : "Gini não melhorou por causa do coeficiente dos 1% mais ricos".
T.P. : "Prefiro usar dados mais intuitivos que o coeficiente de Gini; a renda no Brasil é muito desigual e isso têm importância macroeconômica..."
A.L.R. : "O Brasil é muito desigual, ninguém discute, mas o problema é como corrigir isso."
[T.P. vai responder no próximo bloco]

Bloco 3
[continua a questão da pergunta do bloco anterior]
T.P.: "O Brasil se tornou um país muito desigual antes do governo atual, não sabemos ao certo quando começou, então precisamos de mais dados; a transparência pode ser um meio de aumentar a confiança no governo.

Questão (2ª) de Ricardo Ferraz, questiona se o Bolsa Família foi um programa eficiente.
T.P. : "É um bom programa de transferência de renda e permitiu  - contribuiu para a redução da pobreza. Precisamos combinar mais políticas desse tipo com um programa de taxação progressiva, não só isso apenas."

Questão (3ª) A seguir, Kupfer, acena com o "fantasma" da inflação. "Hoje o desemprego no mundo é um grande problema. Aqui o da inflação. Como solucionar?"
T.P.: "Acho que pedimos muito aos nossos Bancos Centrais e esquecemos que existem outros concorrentes: orçamentários, fiscais, etc. Na Europa precisamos de uma união fiscal mais eficiente e não apenas respostas do Banco Central.
Kupfer: "Como crescer e sair da inflação (...)"
V.T.F.: "...então a solução 'fácil' é o Banco Central?"
T.P.: "...ao fim, o que devemos fazer é uma reforma fiscal, mas realmente o BC é a solução mais rápida (dando inclusive dinheiro aos capitalistas para que a economia não entre em colapso).

Bloco 4.
Questão (1ª) - Kupfer: "Como sair dessa situação?"
[Resumidamente] Piketty fala sobre a situação dos países como o Japão, com crescimento baixo; diz que não é possível apontar solução eficaz para todos [como um todo] - mas é certo que precisamos investir mais nas gerações mais jovens para que haja retorno no futuro.

A.L.R. : "O enriquecimento dos criadores [de inovação] é pequeno..."
T.P.: "A globalização é um fenômeno interessante, mas precisamos de instituições mais democráticas e mais fortes."
A.L.R.: "os 'estabilizadores naturais' existem; não seria melhor apenas taxar o consumo conspícuo?"
[mais algumas questões se acrescentam - houve uma insinuação com relação ao comunismo e ao marxismo por parte de um dos entrevistadores]
T.P.: "Eu nasci em 1971 e quando o ''muro caiu' eu tinha 18 anos; então, eu não vivo na Guerra Fria e não tenho nostalgia daquele tempo. Acredito no mercado, na propriedade privada, no capitalismo - mas precisamos de instituições democráticas fortes. Em resumo, tudo é uma questão de proporção: é preciso remunerar tanto um executivo, um gestor - ou o próprio capital, para que tenhamos empregos e crescimento? Se Bill Gates soubesse que ganharia 'apenas' 1bi na vida, o Windows teria sido criado da mesma forma provavelmente.
Portanto, o mecanismo de taxação, juntamente com outros de redução da desigualdade, é importante para a boa estabilidade das instituições democráticas - dado que as desigualdades [de oportunidades também] dão origem a instabilidades sociais e políticas, além de poderem ameaçar o próprio crescimento econômica e a eficiência.
[fim]

Comentário, brevemente.
O apresentador não tem elegância nenhuma; faz intervenções com arrogância e solicita respostas mais rápidas, com acinte. Não, não é sempre. Já assisti a outros programas em que ele se apresenta "mais suave". Neste programa minha sensação é de que tentou ser "eficiente". Talvez em meio a jornalistas de economia (na verdade colunistas) ele tenha se sentido melhor com essa postura.
A considerar apenas o lado dos interlocutores, o programa poderia ser entendido como um fiasco. Começa bem, com uma vinheta bonita. Na chamada, imagens de miséria e pobreza de um lado, a apresentação do livro, de outro. Na evolução do programa, parece-me que nenhum dos entrevistadores estava preocupado com o tema principal: "renda e desigualdade". De fundo, revelaram sim preocupação com o crescimento econômico e em demonstrar que o governo não é confiável e não funciona, bem como os programas sociais não estão dando certo. Mas Piketty compensou tudo. Repito, deu exemplo de humildade intelectual, esbanjou desenvoltura com respostas breves, simples e esclarecedoras sobre temas que, na verdade, são complexos. Em outros termos, eu diria que Piketty  deu uma aula de como mostrar verdades, já que a verdade é comunicativa, nas palavras de Habermas. Ao final, Piketty saiu-se grande. Não por acaso ele é o atual diretor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais da França. Será que os entrevistados memorizaram bem isso?
Nosso representante local dos economistas, André Lara Resende, deu bom exemplo sim, mas de arrogância intelectual. Foi axiomático. Tentou travar o debate por meio de vários aforismos. Esforçou-se em confranger o entrevistado pela inversão. Apenas para relembrar, a título de prova do que estou falando, elenco os seguintes temas, abordados como sentenças:
1-Adentramos a era do capitalismo tecnológico, onde o que mais vale é o capital humano; essa tese é a de Andrew Solomon;
2-Não precisamos nos preocupar com os 1% mais ricos - afinal, são eles que estão trazendo melhorias para o mundo;
3-Não precisamos de taxação progressiva, pois existem "estabilizadores naturais" da economia;  mas o problema é o consumo conspícuo - esse poderia ser taxado;
4-Querer taxar os mais ricos sobrevém de um sentimento de inveja;
5-Os criadores [inovadores, de tecnologia] não estão se enriquecendo como deviam...

Daria um livro, ao menos um artigo para cada axioma proposto por Lara Resende, no intuito de rebatê-los. Não vou fazer isso, mas posso arriscar fazê-lo em forma de aforismos, para ser curto e breve, como proposto.
Assim, apresento a minha refutação para cada item:
1 - Capital é Capital. Distinguir entre "capital físico" e "capital humano/tecnológico", apenas, para criação de riqueza, é uma falácia - posto que ignora que o principal meio do capital é e sempre foi o dinheiro e em segundo a propriedade (privada); propostas teóricas como a de Solomon querem se desviar do assunto "dinheiro" e "riqueza";  
2 - Se os 1% mais ricos fossem assim tão altruístas, abririam mão de parte de suas fortunas e fariam campanhas a favor da taxação progressiva; as "melhorias" que esses economistas destacam são resultados marginais da busca do lucro - não são necessariamente obra da bondade dos donos do capital;
3 - Se a taxação sobre o consumo fosse a solução, então no Brasil nem precisaríamos da declaração de imposto de renda, dado que a mercadoria aqui sofre vários impostos; não seria, da mesma forma,  uma solução a de taxar o consumo conspícuo; e se houvesse realmente "estabilizadores naturais", ninguém estaria, a essa altura, debatendo sobre a desigualdade ou escrevendo livros sobre ela; então por que se fala tanto no assunto? Ademais, se André Lara Resende acredita tanto assim nos tais "estabilizadores automáticos", então por que participou da elaboração do Plano Real?
4 - Para um economista, falar de sentimento de inveja não faz sentido. Numa análise estritamente econômica os agentes agem segundo a sua racionalidade - no caso, se alguém ganha mais, o agente vai procurar se equiparar, buscar os meios para ganhar mais. A demanda pela taxação é apenas um meio para os agentes;
5 - Ah sim, Bill Gates está "desolado" com a pequena fortuna que amealhou; Steve Jobs se esforçou muito para não morrer na pobreza...
Ora, sem mais comentários. 

domingo, 25 de janeiro de 2015

São Paulo, 25 de Janeiro.

    Divulgação
    No momento em que escrevo, São Paulo, a cidade, faz aniversário. Chegada essa época do ano, jornais, rádios, redes sociais e o resto da população, aquela que aparece na mídia, celebra o momento, declarando o seu "amor a cidade".
    Motivos para a comemoração, certamente os há. Pela minha parca experiência, mas sobretudo tudo tendo como testemunho os amigos, não há comparação em termos culturais com outra cidade. Teatro, cinema, gastronomia. E é possível fazer de tudo um pouco apenas com o dinheiro da condução. Sim, é possível até comer grátis, embora não frequentemente. Mas é perfeitamente possível ouvir música, ir ao teatro, às exposições e ao cinema grátis todo final de semana. Sem filas. As exposições com maior demanda são justamente as que são pagas, ou o circuito comercial, no cinema 3D, por exemplo. Os parques públicos estão cada vez mais disputados, mas com esforço é ainda viável fazer caminhadas ou corridas, ou ainda jogar futebol. O tão combatido "minhocão" fecha aos finais de semana, permitindo que os cidadãos da região façam sua caminha - uma compensação ao transtorno do meio de semana.
    Mas essa é a cidade do final de semana.
    A cidade real, de todos os dias, apresenta-se bem diferente. É necessário que eu a descreva? Alguém está com dúvida de que ela é hostil, agressiva e opressiva? Vou mencionar alguns pontos, e o leitor - naquele ponto em que cada um é afetado - imagine o restante:
    (numa ordem quase crescente)
    -Metrô, trem e ônibus;
    -Trabalho e horário de almoço;
    -Preço do prato na alimentação fora de casa;
    -Calçamento, para o pedestre; asfalto das ruas, para os motoristas;
    -Barulho  - ruído dos carros, ruído das pessoas, ruído do comércio;
    -Trânsito e pedestres;
    -Falta de verde e aridez;
    -Sujeira, lixo e poluição (bem pior, mas com a tolerância das pessoas bem maior quanto as esses aspectos - algo que não consigo compreender; sem falar na poluição visual);
    -Urbanismo - disposição das ruas, tanto para o pedestre quanto para o motorista;
    -Urbanismo - falta de espaço;
    -Urbanismo - especulação imobiliária;
    -Urbanismo - estética visual da cidade (a cidade é feia, mesmo sem os cartazes de propaganda, eliminados pela Lei "cidade limpa", que aliás é um exemplo de autoritarismo rançoso. Sem os cartazes, a cidade não deixou de ser feia, pois falta um modelo de urbanismo humanitário);
    -Civilidade (todo mundo se "acotovela");
    -Violência - de todos, não apenas dos criminosos;

    Sobre tudo isso, é possível iniciar profundos debates, arrastados, conflituosos, desgastantes. Por isso mesmo, a população das grandes cidades parece ter abandonado o debate público, que ao fim, seria de fato o início da solução para todos os problemas.
    Todas as cidades grandes estão com os mesmos dilemas, que já vem de décadas. Nova Yorque não difere nem um pouco de São Paulo nesse aspecto, mas a grande maçã possui suas vantagens.
    Entramos numa fase, isso posso identificar entre os anos 1980 para cá, numa espécie turbourbanismo. O crescimento da cidade não se compatibiliza com qualquer modelo de urbanismo, pois se houvesse um este teria que atuar contra o próprio crescimento. Então, esse turbourbanismo é irrefreável, caótico, possuidor de um dinamismo que atropela tudo. Senão, teríamos tantos problemas quanto os elencados acima?
    Ao andar pela São Paulo atual, por algumas ruas que conheci há décadas - como a Av. São João, por exemplo - não deixo de me tomar por uma profunda tristeza. Observo cenas decadentes, prédios mal conservados, trânsito, barulho e um tanto de sujeira e sebo. Sebo? Sim, na  semana que passou fui a um Sebo, justamente na tal rua que mencionei e comprei um livro. O andar sobre sobre ruínas, já dizia Walter Benjamin, provoca a melancolia. A melancolia vem de um sentimento de nostalgia daquilo que foi e não é mais alcançável. É justamente isso que sinto ao andar em São Paulo, o que meus amigos mais novos não conseguem compreender. Mas ao mesmo tempo, sinto uma enorme esperança quando, ao comprar um livro, num Sebo localizado na Av. São João (Pça. Marechal Deodoro, mais especificamente), vejo que pessoa simples, trabalhadores, apostam numa espécie de modernidade que não é mesma dos grandes investidores, dos grandes especuladores. Marginais, lúmpem, excluídos? Não sei se colhedores das migalhas ou idealistas de mundos possíveis, mas o fato é que ele está ali, naquela posição, vendeu-me um livro, ganhou seu parco dinheirinho e eu economizei um tanto. Juntos, apostamos numa continuidade, uma sociabilidade ainda possível - embora totalmente às "margens" (como se dizia antes na antropologia) da sociedade. Não fiz a compra numa Megastore de Shopping.
    A melancolia não cessou depois dessa pequena experiência. As ruínas estão ao redor. Pego o metrô para voltar para casa.
    Aquela São Paulo continua cada vez mais distante, mas não é apenas pelo tempo passado ou pelo saudosismo presente. Para nós mais velhos, não conseguimos acompanhar o dinamismo da cidade, como os mais novos. Isso é cada vez mais verdadeiro, até um ponto em que até os mais jovens sentirão a dificuldade.
    Bem, por tudo isso, não é possível revelar meu amor por São Paulo. No máximo, uma simpatia; simpatia daquele que mora, trabalha, dorme e tenta se divertir na cidade. Mas a cidade, diga-se, somos nós, não o concreto da Av. Paulista.

    P.S.: nosso problema atual não é "apenas" a falta d'água.

    Fontes: as fontes para este artigo foram apenas as memórias do blogueiro. No entanto, posso indicar o site: http://www.saopauloantiga.com.br/ , para algumas indicações a respeito de urbanização.

    Meu hino a São Paulo:

    São Paulo, São Paulo
    É sempre lindo andar na cidade de São Paulo,de São Paulo
    O clima engana, a vida é grana em São Paulo
    A japonesa loura, a nordestina moura de São Paulo
    Gatinhas punks, um jeito yankee de São Paulo, de São Paulo
    Ah!
    Na grande cidade me realizar
    Morando num BNH.
    Na periferia a fábrica escurece o dia.
    Não vá se incomodar com a fauna urbana de São Paulo, de São Paulo
    Pardais, baratas, ratos na Rota de São Paulo
    E pra você criança muita diversão em São Paulo
    São Paulo...ição
    Tomar um banho no Tietê ou ver TV.
    Ah!
    Na grande cidade me realizar
    Morando num BNH
    Na periferia a fábrica escurece o dia.
    Chora Menino, Freguesia do Ó, Carandiru, Mandaqui, ali
    Vila Sônia, Vila Ema, Vila Alpina, Vila Carrão, Morumbi
    Pari,
    Butantã, Utinga, M'BOI MIRIM, Brás, Brás, Belém
    Bom Retiro, Barra Funda, Ermelino Matarazzo
    Mooca, Penha, Lapa, Sé, Jabaquara, Pirituba, Tucuruvi, Tatuapé
    Pra quebrar a rotina num fim de semana em São Paulo
    Lavar um carro comendo um churro é bom pra burro
    Um ponto de partida pra subir na vida em São Paulo, em São Paulo
    Terraço Itália, Jaraguá, Viaduto do Chá.
    Ah!
    Na grande cidade me realizar morando num BNH
    Na periferia a fábrica escurece o dia
    Na periferia a fábrica escurece o dia



    Apêndice:  Vale do Anhangabaú, antes e depois; o primeiro, em 1927; o segundo nos dias atuais. Note-se que até um certo ponto da modernização, é possível um modelo urbanístico mais humano, ou menos hostil à circulação humana.




    Vale do Anhangabaú, por onde se passava um ribeirão - Antes e depois:
    1.


    2.


    Rua Vinte e Cinco de Março, atual:

domingo, 17 de agosto de 2014

BOM FUTEBOL

    É o que vem demonstrando o Cruzeiro, no campeonato nacional. Joga bem, bonito e é líder. Segredo? Nenhum. Até o Cleber Machado pôde já comentar: aproximação, toque e posse de bola, jogo rápido quando necessário, cadenciado para manter a posse de bola. Eu acrescentaria mais algumas qualidades desse time do Cruzeiro, as quais Cleber Machado não entenderia muito bem, a não ser que estivesse acompanhado de Casagrande como comentarista. Quais são?
    Marcação: nem homem-a-homem, nem por zona fixa, mas por "zona móvel". Claro, assim jogava aquela Holanda. Nesse modelo de marcação, um jogador pode dar conta de até dois adversários; Velocidade: rápida, mas com avanço em bloco de jogadores - de nada adianta ter um velocista no time se ninguém acompanhar - não precisa ser o time inteiro em bloco, mas quando um jogador corre rápido com a bola e deslancha para o ataque, então no mínimo um outro jogador deve acompanhá-lo - melhor se dois ou três assim também o fazem; a mesma recomendação anterior para quando o time está sendo atacado;
    Posicionamento: não é necessário que todos joguem em todas as posições, tal como naquele time da Holanda, mas que cada jogador cumpra com várias posições dentro de campo e se desloque constantemente - dessa forma o adversário poderá ficar confuso,  pois a maioria está acostumada com posições fixas, tanto na partida quanto na retomada de jogo.
    Há mais algumas coisinhas a serem "aprendidas".
    Recuo de bola: é melhor recuar a bola que perder a posse dela. Então não é vergonha atrasar, tocar de primeira para o imediatamente atrás de você, e mesmo recuar para o goleiro - que deve saber sair jogando. Neuer e Rogério Ceni estão aí para nos ensinar. Um toque rápido para trás, para em seguida retomar para a frente, geralmente em triangulações, é uma jogada muito eficaz para não desperdiçar lances e manter a posse de bola; portanto, a lição final: não desperdiçar lances;
    Lançamento: pode e deve ser feito. Mas não aquele "estirão pra frente" à la várzea. Deve ser jogada ensaiada, com intencionalidade de dois jogadores: daquele que lança e daquele que é lançado. Atualmente, em nosso futebol, na maioria dos lances, só há a intenção de lançar para a frente, sem que o jogador que vai ser lançado esteja devidamente preparado para tal lance;
    Impedimento: com inteligência, os atacantes nunca estarão impedidos e a defesa sempre deixará o ataque adversário em impedimento; não há segredo - é treino e disso depende um bom toque de bola e o posicionamento em zona móvel;
    Jogadas ensaiadas: fazem a diferença para qualquer time e nem é necessário que a equipe seja eximia no toque de bola. Basta treinar.

    Não acho que esse time do Cruzeiro esteja "copiando" algum estilo europeu moderno. Não. Há muitas deficiências. Nem tudo sai com perfeição. E nem mesmo os jogadores são "top" - trata-se de um elenco que pode ser considerado até bem abaixo dos grandes em geral. O que ocorre com esse time do Cruzeiro tem um nome: tradição. Sim, a boa e velha tradição do toque de bola que o futebol mineiro, em especial o Cruzeiro, manteve. Apelando um pouco para o saudosismo: Palhinha (aquele que foi para o Corinthians), Nelinho, Piazza, Dirceu Lopes, Perfumo, etc. Estes jogadores consolidaram uma tradição de jogo, baseada no toque de bola, que remonta ao tempo de Tostão, e talvez até bem antes.
    Importante lição: não seria o caso de todos os times nacionais retomarem as "lições do passado". Em história, quando se quer retirar alguma lição dela, fala-se "historia magistra vitae" - isto é, história como mestra da vida; as lições do passado, daqueles casos exemplares, para os fatos da  vida atual. História exemplar. O exemplo da História. Estamos esquecendo tudo. Também no  menos no futebol.

    PS.: quando falo em toque de bola: não apenas o passe certo, mas o toque com limite de condução, no máximo dois - como bem ensinava mestre Telê.

    Olha o time de que falo aí:
    Nelinho, Piazza, Perfumo, Darci, Vanderlei, Zé Carlos, Dirceu Lopes, Roberto Batata, Palhinha, Jairzinho e...Raul no gol. 

domingo, 16 de março de 2014

O mundo é um moinho, segundo Cartola - ou um rio que corre, cujas águas nunca são as mesmas, segundo Heráclito?

Cartola:
Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés

O Mundo é Um Moinho
fonte: http://letras.mus.br/cartola/44901/> [o negrito é por minha conta]


Heráclito (dos fragmentos):
"No mesmo rio entramos e não entramos, somos e não somos."
fonte:Os pensadores, ed. Abril, 1973, p. 90.

A música, do genial Cartola, adverte a pessoa que sair para o mundo é perigoso e imprevisível, um moinho, cujas engrenagens podem derrubar todos os nossos projetos de vida. Eu gostaria de sugerir não exatamente uma semelhança da música de Cartola com o fragmento de Heráclito, mas um complementação. Sim, o movimento, bem como o tempo, é como um rio, onde entramos e não entramos - somos e não somos, isto é, apesar da mesma aparência, minha e do rio, a essência já não é mais a mesma ("Em cada esquina cai um pouco a tua vida").
E mesmo a aparência também já não é mais a mesma, pois não percebemos a mudança no curto tempo, mas na longa duração, aproveitando aqui marginalmente o conceito de Braudel.
Mas também da vida faz parte um moinho, o engenho social no qual nos incluímos e por meio do qual atuamos. Nesse moinho ninguém deixa de passar e a cada momento um pedaço de nós se vai, transformando-nos sempre em outra coisa que não nós mesmos, apesar de lutarmos para manter a identidade, os projetos, os sonhos.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Rolezinhos: os flâneurs hipermodernos
Procura por espaços de lazer, demanda cultural reprimida, luta de classes, busca por autorrepresentação e inclusão social e política. Por todos esses ângulos os rolezinhos foram analisados e justificam-se, em grande parte.
No entanto, gostaria de abordar um ponto que me chamou a atenção: esses acontecimentos – que nos revelam e nos remetem à lógica do capital, pela sua face do consumo – podem ser compreendidos como um epifenômeno da própria ação modernizadora desta lógica. Mais simplesmente: decorrência inexorável de um capitalismo de alto consumo.
Esses acontecimentos recentes podem ser vistos como aquilo que Walter Benjamin descreveu como a ação dos flâneurs. Os jovens que vão ao Shopping "dar um rolezinho" são verdadeiros flâneurs da hipermodernidade.
Benjamin, estudando a flânerie contida na obra de Baudelaire, indica que o flâneur é inicialmente um resistente da modernidade. Gosta de misturar-se à multidão, aprecia a paisagem, sente prazer com os olhares. Obra prima em termos de poema e que pode representar essa figura é A uma passante, de Baudelaire (no livro "As Flores do Mal"). O flâneur de Baudelaire só aprecia, não se confunde com a mercadoria. Dispõe de seu tempo como quer, demora-se, abandona-se à multidão. 
No entanto, afirma Benjamin, com a proliferação irresistível de lojas e galerias  – por onde a mercadoria se expõe, de forma exuberante – o flâneur vai se assimilando à paisagem do consumo. E há mesmo uma busca de se expor tal como a mercadoria, de forma exuberante. Talvez por isso mesmo nossos jovens vão muito bem vestidos a esses eventos, independente e a despeito da classe social a que pertencem. Sim, estou afirmando que esses jovens são os flâneurs mais atuais e a diferença para com o flâneur clássico é que enquanto estes iam observar a multidão, aqueles a carregam. Por que a mercadoria implica multidão, exige olhares, suscita ebriedade. Nada como fazer coisas inebriado – tal como flertar, por exemplo.
Numa expressão metaforizada, é o Shopping que, a despeito dos donos de lojas, invoca esses jovens a irem lá. Mais que a busca por se incluírem na paisagem do consumo – dado que esses jovens representam a ponta de lança da modernidade – e pensando de acordo com o que expus, trata-se de uma correspondência tão lógica que quase "natural", vamos dizer assim. Portanto, esses jovens são os protagonistas principais que agora entram em cena, embora no Segundo Ato. Mas agora também desafiando o então consumo exclusivista, que sempre imperou por aqui, desde aeroportos e rodoviárias, passando por supermercados e até mesmo Shoppings. Se há algo que está no seu lugar são esses jovens no Shopping. Sim, evidente, pode-se criar novos espaços para a cultura e o lazer. Mas não se enganem aqueles que assim o querem: esses jovens não deixarão de ir ao Shopping.

Referências:
[1]BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire. Um Lírico no Auge do Capitalismo. Obras Escolhidas III. São Paulo, Brasiliense, 1989
[2]BAUDELAIRE, Charles. As Flores do Mal. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985 (trad. Ivan Junqueira das obras do séc. XIX de Baudelaire)

Poema de Baudelaire mencionado:

A uma passante

A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.  

Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.

Que luz... e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?

Longe daqui! tarde demais! "nunca" talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!


(As Flores do Mal, p. 345)

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Festa. Nem tudo é...

Sobre a Festa (fête) - ou modernamente:  "Balada"

Segundo A. Comte-Sponville, momento privilegiado, em que - antigamente - era precedido de um momento de recolhimento [como no Carnaval]; hoje em dia não há mais recolhimento - só regozijo. É por isso que as festas tendem a ser um pouco tristes ou forçadas, não fosse o álcool. Excesso permitido, senão ordenado, segundo Freud em Totem e Tabu. Quer algo mais opressivo que uma alegria programada, um excesso obrigatório? Bem, a própria festa faz esquecer isso. 

Fonte (adaptada): COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. São Paulo, Martins Fontes, 2003. p.247

Explicando.
Bebe-se muito, e cada vez mais, em festas. Alguns afirmam que é "para esquecer". Esquecer do quê? Do trabalho mal remunerado? Da traição dos amigos? Do amor perdido? Da "amolação" do chefe e dos colegas de trabalho? Da infidelidade geral das pessoas? De si mesmo, tendo em vista se considerar um fracasso? Ou beber para lembrar que é um super-homem e poder fazer tudo que se quer?
De fato, nossa vida precisa ser bem amarga para na festa - e apenas na festa - fazer tudo que não se pode. Já não foi dito que em "baladas" você se realiza, isto é, você "pode tudo"?  Sim, nas festas atuais tudo pode acontecer e mais um pouco, pois talvez na vida diária nada aconteça assim de tão interessante. O que é realmente triste. Então a vida é triste e a festa é alegre?
Na verdade, a festa tornou-se obrigatória, não para ser feliz, mas apenas para restabelecer o indivíduo como um ser normal, na segunda-feira, no trabalho. Bem, alguns não vão assim tão normais (fisicamente) ao trabalho na segunda, devido aos excessos. Mas é verdade que é assim que ele consegue manter sua integridade psicológica, ao menos até a sexta-feira. Mas é verdade também que  durante a festa a gente se diverte muito. Ou pelo menos ainda há uma aparência de felicidade, pois o tempo da celebração da vida na festa já se foi há um bom tempo.

E.T.: festinha de criança não conta, mas é nessas que - apesar da péssima música que geralmente é tocada - ainda existe um grau de verdadeira felicidade. Ao menos para os pequenos, a observar como se divertem sem nenhuma gota de álcool, embora com muito açúcar.