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sexta-feira, 14 de abril de 2017

A Puta, de Márcia Barbieri.



BARBIERI, Márcia. A Puta. São Paulo, Terracota, 2014.

O romance pode ser lido de várias formas: como uma narrativa do início dos tempos, então seria o Gênesis. Ou do fim dele, então seria o Apocalipse. Em ambas as formas encontramos o poder gerador e destruidor do sexo e da sexualidade. Nascimento e morte estão vivamente contemplados, demonstrados e vividos neste romance dialético, escondidos sob a apresentação aparentemente pornográfica. O pornográfico fica reduzido aqui apenas à linguagem (ou nem isso, porque não há apropriação, mas forma de expressão), enquanto os símbolos nos remetem ao contraditório das representações de gênero e de tipos, entendidos como persona - ou seja, o papel que se está assumindo no momento. Ou numa linguagem da psicologia junguiana, na forma de arquétipos.

Por isso mesmo a Puta, aquela que dá origem a tudo e a tudo pode destruir, constitui-se como a interface do mundo - e justamente por isso ela se relaciona com o Poeta, com o Filósofo, com Flamenca, uma mulher. Seria a Puta o self por meio do qual a humanidade se orienta? Talvez. Talvez o romance seja um desafio para ou o contraponto do poder do macho. Pode ser entendido assim das duas formas. De qualquer maneira, da Puta emana o poder feminino, que (inclusive) é um poder de fingimento, escamoteamento (tal como descrito à p. 76). Enfim, é um desafio para o mundo em que vivemos, especialmente os atuais.

A narrativa simbólica e a linguagem permeada de metáforas e de poesia, permitem múltiplas interpretações. Mas ao terminar o romance, tenho certeza de que o leitor terá uma imagem de transgressão como nunca experimentou na vida, pois o romance supera o tabu (no plano simbólico e não apenas da linguagem) em torno da figura que ninguém quer falar,  assumidamente, como fazendo parte de sua própria vida, ainda mais se lembrarmos que a prostituta é uma figura simbolicamente ambivalente [1] e, portanto, destruidora da identidade bem comportada.

O Estilo. O romance, inicialmente, não é fácil de ler - exige reflexão e assimilação a todo instante. Mas o leitor vai se acostumando à prosa um tanto poética e peculiar da autora. Falar em prosa poética é algo muito elementar para classificar o estilo do livro, pois ele é algo mais complexo que isso. A prosa contém poesia, sim, mas é de um simbolismo muito forte, de imagens vivas e bem carregadas no colorido.
Por meio desse simbolismo, que é gerador e destruidor ao mesmo tempo, conta-se uma história. Como dissemos, não é fácil de ler e acompanhar; no entanto, a partir de determinado ponto torna-se uma necessidade, uma certa dependência da leitura toma conta de nós - mas no momento certo, antes de se tornar um vício, o romance termina. E tal como num oráculo, a mensagem foi lançada. Cabe interpretar da melhor forma possível.


[1]JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis, RJ : Vozes, 2000. p. 199

sexta-feira, 31 de março de 2017

O Que Está Por Vir (L'Avenir), 2016, Dir. Mia Hansen-Løve. Crítica.

    O Que Está Por Vir (L'Avenir), 2016, Dir. Mia Hansen-Løve
    Sinopse:
    Nathalie (Isabelle Huppert) é professora de filosofia, tem dois filhos que pouco vê e um marido também docente, seu companheiro há 25 anos. Entre trocas de ideias com o pupilo anarquista, ligações insistentes da mãe solitária e piquetes de alunos, ela leva uma vida tranquila. Mas tudo está para mudar.

    Comentário.
    O que este filme talvez nos mostra é que as mudanças que se dão no mundo também nos alcançam, independente de nossa atitude mais ou menos ativa nele.
    Providencial que a protagonista seja uma professora de filosofia. Bom exemplo para refletir sobre a vida ativa e a vida contemplativa (de acordo com Aristóteles). A despeito de trabalhar como professora - dar aulas, corrigir provas e escrever livros - Nathalie leva uma vida absolutamente contemplativa. E bem burguesa, diga-se de passagem. As leituras não levam a ação; pelo contrário, levam à refração de qualquer atividade mais política ou engajada. Mas as coisas começam a mudar: divórcio, separação de bens, uma amizade com um jovem, a quebra de contrato com a editora, os protestos dos alunos frente às mudanças na previdência, a mãe doente, e um neto. Tudo isso agora "empurrando" a personagem para a ação, levando-a à atividade. Em cada círculo, uma reflexão prática, se podemos dizer assim: o divórcio: sair da relação acomodada, já que o marido, Heinz, comporta-se como apenas um colega de profissão; a amizade com Fabien: sair da acomodação contemplativa, dado que Fabien é um "ativista" e acredita numa alternativa social ao mundo capitalista; o trabalho na editora: sair da relação economicamente cômoda, pois é evidente que é o trabalho de escrever livros é que completa a renda; a mãe: sair da relação de filha, já que é obrigada a dar atenção cada vez maior à mãe, pois o estado social de bem-estar recua cada vez mais (lembrar da parte dos bombeiros); o neto: entrar na relação de avó, numa espécie de nova maternidade, um cuidado com a nova geração, pois o mundo é uma interrogação...
    O contexto do filme são as mudanças da França sob Sarkozy, o avanço neoliberal - momento que estão se discutindo as reformas previdenciárias, inclusive. Os alunos da professora querem fazer greve, em protesto às mudanças - mas o movimento está dividido. A professora nem quer tomar conhecimento. Está imersa em seu mundo contemplativo. Mas esse comportamento começa a se alterar com as próprias mudanças em seu meio - trabalho, família, amizade. Então, o que fazer? Acredito que seja essa reflexão que a diretora do filme quis que fízessemos. Por isso mesmo a trama não foi totalmente acabada; o filme termina em suspensão; os fios estão soltos para que nós mesmos façamos seu cerzimento. Não por acaso a filósofa embala um nenê, seu neto, uma promessa de futuro. É preciso ter esperança nas novas gerações.

    P.S.: A tradução melhor para L´Avenir talvez seja "o porvir", como o futuro. "O que está por vir", no português, pode dar a ideia do que imediatamente está por vir, algo que aconterá mais próximo de nós - essa ideia é uma decorrência do verbo auxiliar "está", que não deveria ser usado para a tradução.  
     A crítica equivocada, na minha opinião, é a do Do AdoroCinema. Leia no link abaixo:

sexta-feira, 17 de março de 2017

A Reforma na Educação e o movimento ESP

    -- Ou: como nos transformar em estúpidos sendo tolos

    Es.tú.pi.do. adjetivo. 1. Sem inteligência, sem discernimento (projeto estúpido, indivíduo estúpido). 2. Sem ação, transtornado, atacado de estupor: "Notei o pasmo com que meu pai ouviu, e fiquei de pedra, estúpido de dor, ao ouvir-lhe esta sentença..." (Camilo Castelo Branco, As três irmãs) 3. Que é excessivo ou insuportável: um calor estúpido o deixou exausto. 4. Bras. Que demonstra grosseria, brutalidade: Era muito estúpido com os subordinados. Substantivo masculino. 5.Indivíduo grosseiro, brutal: Estúpido aqui não tem vez, aqui vale a boa educação.[Aum.: estupidarrão] [F.: Do lat. stupidus.]
    Fonte: Dicionário Novíssimo  Aulete, Lexikon, 2011, p. 619.

    Este termo pode expressar uma "qualidade" - estupidez, mas também define uma patologia na ciência psicanalítica:
    Estupidez. (...) Limitação nos processos ideativos e na capacidade de julgar.
    Fonte: GALIMBERTI, Umberto. Dicionário de Psicologia. São Paulo, Loyola, 2010 (1992). p. 472

    Sendo um adjetivo ou uma patologia, o termo parece bem referir aqueles que sairão formados das escolas se a ideia do Escola sem Partido vingar e uma tal legislação desse tipo vigorar. A MP (medida provisória) da Reforma da Educação, convertida agora em Lei ( Nº 13.415, DE 16 DE FEVEREIRO DE 2017), nada mais é que um atendimento às reivindicações gerais da ESP e um preparo para reformas baseadas em seus pressupostos. Quem se dispuser a ler atentamente a lei e conhecer um pouco da LDB poderá perceber as contradições, pois se aplicada, a nova lei esfacela o ensino de humanidades. Obviamente, ao diminuir a grade e oferecer disciplinas como optativas, haverá diminuição de profissionais alocados para essas áreas. O que, por sua vez, fará com que se diminua a procura destas disciplinas por parte dos alunos. Um ciclo redutor entre oferta e procura, levando a um esvaziamento no ensino delas.

    Isso sem mencionar que a Lei quer promover mudanças sem que a base material necessária esteja pronta. Aumento da carga horária exige mais escolas. Os governos estaduais estão fechando escolas. Querem diminuir o teto de gastos, que incluirá os com a educação. Como será promovida tal reforma na educação, em termos práticos?
    Como se diria popularmente, no papel suportam-se todas as ideias. Mas parece que estamos vendo algo  típico do nacional ao adotar as boas intenções primeiro para depois observar o que sucede na prática. Resultado: muda aquilo que pode mudar, em termos práticos imediatamente; o resto, virá (espera-se) depois. E o que se pode mudar imediatamente é a base curricular, a BNCC, em sua grade. Ponto para o ESP, que quer nos tornar estúpidos, tanto qualitativamente quanto patologicamente, pois é assim que entendo em que transformarão as gerações futuras após tais mudanças. Formar para a profissão? Quais? Em quais condições? Se vão oferecer cursos técnicos a estrutura já está sendo providenciada, tais como laboratórios, etc? Alguma garantia de que esse cursos serão os mais modernos e adequados com as rápidas revoluções tecnológicas que se sucedem atualmente?

    Fontes na internet:

    Para saber um pouco mais, sugiro, além das fontes na internet, o seguinte livro:
    "A ideologia do movimento Escola Sem Partido. 20 autores desmontam o discurso." , São Paulo, Ação Educativa Ed., 2016.
    Em tempo.
    Segundo Deonísio da Silva, em seu "A vida íntima das palavras" (ed. Arx, 2002), do latim stupidu - admirado, "passou a significar tolo porque os muito bobos se espantam com tudo, dada a sua falta de conhecimento." (p.187)

domingo, 5 de março de 2017

Só porque é bem feito, não quer dizer que é bom. Crítica do filme Ave, César, 2016, Dir. Joel e Ethan Coen

Só porque é bem feito, não quer dizer que é bom.
Crítica do filme Ave, César. EUA/R.Unido, 2016, Dir. Joel e Ethan Coen



Direção: Joel Coen, Ethan Coen
Sinopse. Hollywood, anos 1950. Edward Mannix (Josh Brolin) é o responsável por proteger as estrelas do estúdio Capitol Pictures de escândalos e polêmicas e vive um dia intenso quando Baird Whitlock (George Clooney), astro da superprodução Hail, Caesar!, é sequestrado no meio das filmagens por uma organização chamada "Futuro". (retirado de <http://www.adorocinema.com/filmes/filme-225859/>)

Comentário.
Um filme no mínimo duvidoso dos irmãos diretores. Trata-se de uma crítica à Hollywood? Ou uma apologia? Ou nada disso? Mas é bem curioso como ele apresenta as personagens-tipo em seu filme, sempre no tom irônico que beira o sarcasmo:
-atores: frágeis e suscetíveis, estão sempre precisando de uma ajuda para "brilhar";
-roteiristas: revoltados por se sentirem explorados, são eles que apoiam as ações da célula; estão envolvidos no rapto do ator;
-figurantes: gente que não é conhecida e, portanto, suspeita. Um grupo deles faz o rapto do ator principal de um filme que ainda está sendo filmado;
-críticos de cinema (ou os colunistas de fofocas): ácidos, mal-humorados, sempre à espreita de algo "podre" no reino da fantasia;
-produtor executivo: cuida de tudo, é homem bom; vai confessar-se ao padre; trabalha muito, não tem tempo para a família e mesmo assim é um bom marido; recusa um trabalho mais fácil e mais remunerado porque desconfia que é anti-ético. Ele é o verdadeiro "César", o menos caricato dos personagens.

Uma vez raptado, Whitlock, o ator principal do filme, cai numa "célula comunista" e é seduzido pelas ideias do grupo. Daí pode se imaginar os chavões e frases prontas que, evidentemente, são embaralhadas intencionalmente de modo tal a provocar confusão no público que assiste ao filme de verdade. Claro, a caricatura é para desqualificar. Por um golpe de sorte, o ator é resgato por um outro, que está ascendo no mundo do cinema. Na volta, Mannix, o produtor executivo aplica-lhe uma advertência e uma lição (física mesmo, dando-lhe uns tapas na cara e chamando-o à realidade, ou seja, ao trabalho). O produtor - o homem do dinheiro - não aparece. Mannix é o chamado produtor executivo, um gerente que cuida do estúdio e do andamento dos filmes.
Enfim, qual a mensagem do filme, se há alguma, pois os irmãos Coen gostam de passar a impressão de que não querem dizer nada? Hollywood é uma fábrica de sonhos, ninguém é explorado ali porque todos fazem, afinal, o que gostam de fazer. E a vida é assim, cada um no seu trabalho.
Simples demais, até mesmo para os irmãos Coen, que gostam de fazer filmes brincando com a teoria do caos.Há filmes bem melhores e mais complexos, mesmo produzidos em Hollywood (!), que tratam interessantemente o tema. Qual? Para ficar num antigo: o maravilhoso "Crepúsculo dos Deuses" (Billy Wilder, 1950), por exemplo. "Ah, mas os irmãos Coen fizeram apenas uma comédia". Então no mesmo enredo há o incomparável "Dançando na Chuva" (Stanley Donen, 1952) - uma crítica ácida, cheia de ironia fina e muito bem escrita sobre Hollywood, que é sim, uma indústria.

O que salva no filme. George Cloney. Faz perfeitamente o papel de ator ingênuo, suscetível na vida real, mas que na tela dos filmes aparece como corajoso, firme. Outra coisa que se salva no filme é a qualidade técnica da reprodução de cenas dos filmes antigos.
O que é falso. É apresentar tudo assim de modo tão caricato. Houve muitas revoltas de roteiristas em Hollywood, como sabemos (a última foi em 2007, organizada pelo sindicato, a WGA. Fonte: Wikipédia). Há motivo? Sim. Quem ler a biografia de Scott Fitzgerald sabe do que estamos falando (Meyers, Jeffrey -  Scott Fitzgerald, uma biografia). Precisando de dinheiro, Fitzgerald foi trabalhar como roteirista em Hollywood, recebendo uma remuneração baixa por semana, mas não era só isso que o atormentava mais. O que incomodava era o modo de trabalho a que era submetido: como numa linha de produção, os roteiros eram produzidos numa sala juntamente com outras dezenas de roteiristas, com horários fixos a cumprir. Os textos não eram necessariamente aproveitados, mas submetidos a uma seleção posterior. Ou seja, produção era em série, como em esteiras de fábricas fordistas.
Esse cinema um tanto cínico, sarcástico e de algum modo debochado está se tornando comum em Hollywood - não só, mas no cinema americano em geral. Fazer prevalecer o que há de pior no ser humano, sem maior aprofundamento ou complexidade, está se tornando típico de diretores  como os irmãos Coen e Tarantino, por exemplo. E sinto dizer, até mesmo diretores como Iñárritu, mas para isso há uma outra crítica que ainda estou para escrever. Sinceramente, sinto falta de diretores como Vincent Minelli, Victor Fleming, Otto Preminger e outros, só para ficar numa lista em que se produziu cinema comercial, mas de boa qualidade.  
O filme dos irmãos Coen finaliza por não conter uma ironia fina e de reflexão, a despeito de querer ser pretensamente sutil. Não é realista. É cômico, mas com humor sarcástico e debochador. Quer vender uma realidade exagerada na forma e fraca no conteúdo. O filme dos Coen não faz jus aos filmes da época que retratou. Nem um pouco.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Antropofagia ou: quando a leitura deve ser literal

Antropofagia.
1.Ação, comportamento ou condição de antropófago; CANIBALISMO; 2.Aantr. Prática, ger. com caráter ritual, de canibalismo entre seres humanos; 3.Bras. Hist. Liter. Art. pl. Movimento brasileiro de vanguarda, na literatura e nas artes, que, no fim dos anos 1920, defendia uma combinação de modernização e nativismo, pregando a assimilação crítica, irônica e irreverente de elementos estrangeiros (...) tomando como modelo a antropofagia dos antigos tupinambás (ingestão do inimigo para a apropriação de suas qualidades guerreiras) (...)
Fonte: Novíssimo Aulete, Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro, Lexikon, 2011, p.122.

Defesa de Sakamoto.

No artigo de seu blog:
O ódio à Marisa Letícia: É o Brasil antropofágico que pede passagem
 O referido post de Sakamoto causou alguma celeuma entre intelectuais, que se viram "ofendidos"ou afetados com o uso do termo acima pelo jornalista. Não vi razão para tanto e ainda mais para um “puxão de orelha” tão exemplar e público, desproporcional ao erro, no meu entendimento.  Talvez haja quem não concorde e diga que eu é que estou exagerando. Mas para quem ler o texto de Beatriz Azevedo, coloque-se no lugar do sabatinado e tente avaliar suas próprias percepções das coisas que lhe afetam. O artigo da autora é xistoso, recheado de trocadilhos ("Sakamoto, você não saka..."), "adorável" de se ler, bem ao gosto de algumas literaturas atuais.  Não para o meu. Não aprecio essa estética. O artigo de Sakamoto optou pelo peso, a fim de ilustrar uma situação trágica da vida nacional, então empregou o termo na sua acepção quase literal, genética, anterior à consagração semântica que os modernistas lhe emprestaram.  Tenho muitas ressalvas aos modernistas, brasileiros ou não, mas isso não cabe aqui - uma certa tendência de se apropriar de termos e torná-los exclusivos e universais, é uma delas. Os estudiosos do modernismo tratam o movimento como se ele fosse o ponto culminante da cultura em geral. Não é o meu ponto de vista.
O que me pareceu evidente é que foi muito oportuno para a Revista Cult publicar a tal crítica, na Coluna de Márcia Tiburi, em artigo de Beatriz Azevedo - tese de seu livro, resenhada em 2016 pela própria Márcia.
E enfim, a despeito de tudo isso,  Sakamoto publicou um adendo ao seu artigo, assinado pelo jornalista Rodrigo Savazoni, que explicou muito bem, sim, quais as diferenças entre o movimento e o termo de mesmo nome. E, ao final, o próprio Sakamoto não empregou o termo em seu sentido estritamente literal, pois ninguém "comeu" ninguém na vida política, mas o termo quis indicar a eliminação política da figura pública. Então Sakamoto empregou o termo também em sentido simbólico, tão válido quanto o dos modernistas. E pelo que me consta, o sentido antropólogico, que não é o dos modernistas, ainda continua perfeitamente válido. Para a Antropologia ao menos.
Mas tratou-se Sakamoto como se ele nada soubesse ou desconfiasse a respeito do uso do termo pelo  movimento modernista. E de forma lamentável. 

Antropofagia no Brasil em 1557, segundo a descrição de Hans Staden.




sábado, 6 de agosto de 2016

Omar Khayyán. Rubaiyat. Delícias de algumas traduções.

Omar Khayyán. Rubaiyat. Traduções.
Leituras realizadas este ano, com base em três traduções da obra de Khayyan. Uma primeira de Octavio Tarquínio de Souza, cuja primeira edição é de 1928. Uma segunda de 1959, na tradução em versos de rimas variadas de J.B. de Mello e Souza, irmão de Malba Tahan. A terceira, bem mais recente, acompanha uma pequena biografia, interpretação da obra e um inventário crítico das muitas edições do Rubbaiyt. Comecemos pela edição de Mello e Souza.




KHAYYÃN, Omar. Rubaiát. Trad. em verso por J. B. de Mello e Souza. Rio de Janeiro, Topbooks, 2013 (1959).

Irmão de Malba Tahan, Mello e Souza empregou traduções francesas (Franz Toussaint) e inglesas (Waringhien, Christensen, Rempis e Fitzgerald) para esta edição original de 1959, que a mantém em versos.
As poesias estão bem justapostas nas quadras. As rimas variam, não seguem um esquema fixo - como ABAB ou AABA, mas vão desde isso até um AAAA ou ainda totalmente brancos.
O autor desta tradução considera Khayyán como o poeta da Desesperança (p. 19), com toques de melancolia, sarcasmo e desalento. O poeta persa foi, na sua concepção, um "exaltado panteísta" - não que acreditasse em algum deus, mas numa força desconhecida que rege o Universo e que o submete a leis imutáveis e eternas. Trata-se do Eterno Enigma, na versão traduzida por Luiz Antonio de Figueiredo. Segundo Mello e Souza, o poeta não se conformava admitir um Deus supremo que tivesse criado um ser tão imperfeito quanto o homem.
E com relação ao amor, ao invés de desconfiança, como frisa Octavio Tarquínio de Souza, Mello e Souza observa o entusiasmo pelo amor, umas das efêmeras condições de felicidade terrena (p.21).
Bem destacado por este autor, em que pese as diferenças para com outros tradutores, é a observância no que diz respeito à falta de alusão à Família, à Pátria ou à Raça. Nem poderia ser diferente, pois estes temas pertencem à modernidade. Mas com razão, não há a menor referência. Khayyán só abraça os grandes temas da vida.
O vinho também é bem destacado pelo tradutor. Há uma verdadeira exaltação do vinho; além de ser uma bebida valorizada por estes povos antigos, a embriaguez também assim é igualmente. Então parece-nos que o vinho é uma maneira natural de fugir ao ceticismo e ao materialismo que oprime o espírito, ao mesmo tempo uma forma de atingir estado de espírito mais elevado. Podemos chamar de "metafísica do vinho" - uma forma de transcender e olhar com mais admiração, mais beleza, para a vida.

Um cético, mas que acreditava na força viva da vida, no seu fluxo incessante, como um rio. Assim podemos considerar Khayyán por aqui. Por isso mesmo não podemos concordar com Mello e Souza que seja o poeta da Desesperança.


KHÁYYÁN, Omar. Rubaiát. Trad. Octavio Tarquinio de Souza. Rio de Janeiro, José Olympio Ed., 1944, 5ªed. (1ª ed. 1928).
O tradutor leu várias versões francesas, mas a que lhe serviu de base, segundo o próprio, é a de Franz Toussaint. As considerações do tradutor em seu prefácio sobre Khayyán não diferem muito das de Figueiredo, outro tradutor que se valeu não da tradução francesa, mas da inglesa, de FitzGerald.
A forma não foi a de versos, mas de prosa no estilo de aforismos.

Segue alguns trechos do prefácio de Tarquínio:
"Ninguém melhor que Omar Kháyyám viu a precariedade do destino humano (...) Só existe, só vale o momento presente. O passado não volta mais, o futuro é incerto e virá provavelmente cheio de tristeza e decepções. Cumpre, pois, aproveitar intensamente o momento atual, que passa rápido como o esplendor transitório da rosa. (...)
O passado não tem interesse. É um cadáver que deve ser sepultado. Nada esperemos também do futuro. Para não perder a coragem de viver, é necessário embriagar-se do momento presente.  (...)
Beber vinho! Vinho cor de rubi, vinho cor de rosa, vinho cor de sangue!
O vinho faz perdoar a pena de viver. (...)
O vinho é a fonte do entusiasmo. (...)
Nada de largas esperanças, nada de grandes ilusões. A vida há de ser sempre uma constante renúncia. (...)
A filosofia e a ciência não vão além das aparências. O homem diante do mistério do universo é o cego ferido de cegueira total. (...) Os sistemas dos filósofos e as construções dos sábios são palavras ocas e têm a consistência das miragens no deserto. (...)
Cumpre também não confiar no amor. Não divinizemos a mulher. O amor é apenas a sensação passageira, o delírio fugaz. (...)
A vida, se tivesse sentido, seria dom funesto, presente trágico. Não há por que agradecê-la. É uma imposição caprichosa." (p. III e segs.).
Segue alguns trechos do prefácio de Tarquínio:
"Ninguém melhor que Omar Kháyyám viu a precariedade do destino humano (...) Só existe, só vale o momento presente. O passado não volta mais, o futuro é incerto e virá provavelmente cheio de tristeza e decepções. Cumpre, pois, aproveitar intensamente o momento atual, que passa rápido como o esplendor transitório da rosa. (...)
O passado não tem interesse. É um cadáver que deve ser sepultado. Nada esperemos também do futuro. Para não perder a coragem de viver, é necessário embriagar-se do momento presente.  (...)
Beber vinho! Vinho cor de rubi, vinho cor de rosa, vinho cor de sangue!
O vinho faz perdoar a pena de viver. (...)
O vinho é a fonte do entusiasmo. (...)
Nada de largas esperanças, nada de grandes ilusões. A vida há de ser sempre uma constante renúncia. (...)
A filosofia e a ciência não vão além das aparências. O homem diante do mistério do universo é o cego ferido de cegueira total. (...) Os sistemas dos filósofos e as construções dos sábios são palavras ocas e têm a consistência das miragens no deserto. (...)
Cumpre também não confiar no amor. Não divinizemos a mulher. O amor é apenas a sensação passageira, o delírio fugaz. (...)
A vida, se tivesse sentido, seria dom funesto, presente trágico. Não há por que agradecê-la. É uma imposição caprichosa." (p. III e segs.).

Aqui, ainda que pela tradução presente, não é possível concordar com o tradutor no que diz respeito à mulher e à renúncia. Khayyán renuncia ao que é ilusório, não aos prazeres - portanto, não à vida como um todo, mas somente àquilo que vai além dos sentidos. O amor aparece em Khayyán mais nesta forma material, que dá prazer, mas não destituído do belo. Neste sentido, a mulher assume uma forma tão contemplativa quanto a natureza, representada pela primavera, pela lua, pela rosa, etc. Os lábios da mulher são vermelhos, como a rosa, digna de admiração, contemplação. O vinho é rubi como alguns lábios femininos. O efêmero não retira a beleza da vida, que é vista não em sua forma metafísica, mas plástica e dinâmica. Há beleza no movimento da vida. Vejam este aforismo da página 56:

Meu nascimento não trouxe nenhum proveito ao universo.
Minha morte não lhe diminuirá a imensidade, nem a  beleza.
Ninguém pode explicar-me porque vim, porque me vou embora.

A beleza do mundo está neste próprio mistério da vida e esse mistério se faz expressar nas coisas que vemos e sentimos. Luiz Antonio de Figueiredo, outro tradutor, fala de hedonismo trágico. Eu prefiro falar simplesmente de hedonismo. Dado que o fim é certo, deixa de ser trágico, transformando-se em resignação, não exatamente em desespero. 


KHAYYÁN, Omar. Rubáiát. Trad. Luiz Antonio de Figueiredo. São Paulo, Editora Unesp, 2012.
Recriação em quadra de versos que usa como base a tradução inglesa de Edward FitzGerald, que traduziu diretamente do persa.
Rubái quer dizer quadra; rubáiyát é o plural de rubái. Na recriação do autor, tentando ser o mais fiel possível a FitzGerald, manteve o terceiro verso branco:  AABA.

Comentário. Algumas quadras funcionaram bem, outras nem tanto; mas no geral ficou agradável aos sentidos. Os versos ficaram melhor no esquema de rimas variadas, não rígidas,  da tradução de J. B. de Mello e Souza, editora Topbooks, 2013, reedição de 1959.

Na segunda parte do livro encontramos uma pequena biografia de Khayyán e sua obra, além de uma interpretação. Um último capítulo desta segunda parte é dedicada aos comentários das várias edições, onde o autor faz um pequeno inventário das traduções.  Destaque para esta edição é esclarecer sobre a escolha dos rubáiyats entre os milhares conhecidos, trabalho a que se entregaram os críticos.
No que se sobressai da obra de Omar:
Hedonismo trágico. Para suportar a brevidade e a falta de sentido da vida é preciso gozar os momentos, pois a vida é ilusão de Eternidade; trata-se de uma espécie de "Carpe Diem", que permeia toda a poesia.
Prazer e Beleza. O vinho e a rosa. Esse deleite da vida é interposto por símbolos recorrentes na obra de K.: o vinho, a rosa, a lua, o rouxinol, etc. encarnam a música, a o amor e a amizade e a primavera - momentos que devem ser aproveitados; 
Véu da ilusão. Universo é ambíguo e obscuro, assim como a existência humana. A chave do enigma do Universo não nos é acessível; o Eterno nos dá apenas um aceno por meio da beleza do mundo - como os pássaros e as flores;

Figueiredo tenta uma interpretação aproximativa da poesia de  Khayyán com a filosofia de Schopenhauer (p.124 e ss.), mas um pouco forçada, no meu entendimento. Para o filósofo alemão a vida é breve, dolorosa e sem sentido. Neste caso, Khayyán estaria de acordo mais com o último e o primeiro, mas não concordaria com a vida dolorosa e muito menos em renunciar ao prazer devido a isso, como aconselharia Schopenhauer. Nas páginas que se sucedem, Figueiredo força cada vez mais essa aproximação, esmiuçando a filosofia de Schopenhauer.

Oleiro. O oleiro aparece em várias quadras da poesia de Khayyán, representando o criador que modela a argila (matéria) para produzir o vaso (homem). Mas pelo que depreendemos dos versos do poeta, o Oleiro é uma figura fictícia ou não assumida como existente - ou seja, é sempre posta em dúvida. O que é certo é que o homem vem da argila e a ela voltará, integrando um ciclo natural.
Vaso imperfeito. Somos imperfeitos - isso é expresso pela nossa ignorância das coisas (v. p.129). A "solução" é o vinho, que nos induz a sonho, um meio de sair da dura realidade. Podemos dizer que é um materialismo que se impõe aos nossos sentidos e do qual o poeta tenta escapar? Sou levado a acreditar que sim.
Vinho. Segundo Figueiredo, o vinho, por ser uma "criação divina" deve ser louvado. Mas aqui também é um pressuposição do poeta - o vinho é tão bom que se houvesse um Deus o teria criado de qualquer maneira. O vinho é o bálsamo da vida.
Incerteza da origem e do destino humano. Esse mundo é uma torrente de coisas que flui e que desdenha a origem, tanto quanto o destino. Não sabemos de onde viemos e nem para onde vamos.
Incerteza do Eterno. O poeta quer o eterno - há uma nostalgia do Eterno em seus versos; mas como alcançá-lo é impossível, então investe-se avidamente no prazer - daí o hedonismo trágico. Há uma certa renúncia do poder, da ambição do conhecimento, da glória, mas não do prazer, não da celebração da vida. Não importa de onde ela tenha vindo ou como tenha vindo. A vida é celebrada pelos seus símbolos: a rosa (primavera), a lua (o belo que pode ser visto), etc.
Ceticismo. O ceticismo de Khayyán revela-se por toda a sua poesia - mas trata-se de um ceticismo hedonista, como afirma Figueiredo. Khayyán descrê de uma vida invisível, mas acredita no mundo que se apresenta, em sua beleza; daí também a renúncia ao poder e aos tesouros.
A mulher. É a figura adorada e admirada, representada também pela Rosa. A mulher não é apenas matéria a ser deleitada, mas beleza que merece seu lugar quase divino, como o vinho. Portanto, trata-se de uma figura elevada, mas não totalmente divina, pois seria assim inalcançável. Pelo contrário, a mulher é algo bem próximo.
Véu do mundo e o Rio. Se tudo que vemos é como um véu (uma ilusão), então o que é o Mundo? Em uma de suas quadras, o poeta afirma: "Cascata que flui sem saber" (p.35). Ou seja, a vida é como o curso de um rio, como no Tao e como em Heráclito. Atentemos para essa quadra:

A este Mundo - Cascata que flui sem saber
Por quê, ou de Onde vem - também vim sem querer,
e como o Vento errante ignora Onde vai,
Desconheço Onde vou, ao desaparecer.

Ela resume bem a "filosofia" do poeta. A vida é como o curso de um rio, uma cascata que despeja água incessantemente; não sabemos de onde viemos nem para onde vamos, como o Vento, que ignora seu destino.

Eterno Enigma e o Tao. A vida é um mistério, onde tudo aparece e desaparece. Por aqui podemos nos aproximar da filosofia do Tao, ou o Tao, simplesmente. Vamos ler estas quadras:

Sua secreta Presença invade a Criação
por todas as artérias. Tem a compleição
das coisas mais extremas, como a Lua e o Peixe:
mutante, tudo morre. Ele, no entanto, não

Surge por um Instante, então desaparece,
dissolve-se no Escuro e com Ele Anoitece,
eternamente Autor e Ator do mesmo Drama,
repete o mesmo Enredo, onde Nada acontece.

Ora, não é o Tao o eterno preenchimento e esvaziamento, para onde tudo vai e de onde tudo vem? Figueiredo não faz essa aproximação, mas isso parece-me evidente. Khayyán era um bom observador, mas também um bom pensador. Não é de se surpreender que tenha chegado a essas reflexões, que se aproximam de outras filosofias. Até mesmo uma dialética é possível identificar em seus versos. Por minha conta e risco, tomemos como exemplo máximo este verso, entre outros:

Se baixas teu olhar, fitando o duro Chão,
ou ergues para o Céu, em Sua Imensidão,
lembra que tu é tu neste exato Momento,
mas e Amanhã, depois da própria negação?

Observemos as oposições: Chão-Céu/Momento-Amanhã. Olhando para o aqui, no Chão ou olhando para o Céu, independente disso, amanhã seremos diferentes de hoje, posto que seremos negação da existência de hoje e assim por diante.

Conclusões e Comentários.
O tradutor aproxima Khayyán de Schopenhauer, mas eu o aproximo mais do Tao, embora destituído do ascetismo dessa Ideia. O Tao como explicação do movimento do universo, não como explicação de sua origem. Não podemos aproximar Khayyán de Schopenhauer, pois este tenciona ao ascetismo, à renúncia do material. Khayyán não quer renunciar a nada, embora menospreze o poder e a glória; o materialismo de Khayyán é imediato: os prazeres e a beleza da vida, embora não possam ser explicadas, estão aí. Não sabemos se foram feitas para nós, mas por que não aproveitá-las? O Eterno Enigma não é explicável posto que não é alcançável por nossa ciência, que ilumina alguns movimentos, mas não vai além das aparências. 
No geral, destaca-se o vinho: bebida que intermedia o humano e o divino, embora este seja uma ilusão, um produto da imaginação; na verdade o vinho é o que nos torna divinos, pois é ele que nos induz a fugir da tragédia humana material, esquecer o efêmero e aproveitar melhor o momento. Nas minhas palavras:

"O vinho nos remove o excesso de realidade" .

Com relação às traduções aqui consideradas, podemos afirmar, por elas,  mais ou menos tudo o que foi exposto acima sobre o grande poeta persa. 



terça-feira, 21 de junho de 2016

Sobre Ayn Rand



The Nightingale - René Magritte
"As riquezas pintam o homem, e com as suas cores cobrem e escondem não apenas os defeitos do corpo, mas também os da alma." (Boccaccio, Lettere, a Pino de' Rossi).

"O amor-próprio é o maior de todos os aduladores." (F. la Rochefoucauld, Maximes, V.2)

Ayn Rand foi a intelectual em voga após a crise de 2008, sendo lançado aqui um de seus livros mais conhecidos: "A Revolta de Atlas". Segundo muitos pensadores, é a "Bíblia" do pensamento liberal na segunda metade do século XX.
Ao fazer a pesquisa sobre a autora, pela internet, percebi que as indexações iniciais não trazem diversidade de crítica, mas na sua maioria matérias apologéticas. Compulsando um pouco mais e refinando com o termo chave "crítica" ou "resenha", encontramos alguma coisa. O primeiro verbete em destaque é o da Wikipédia, que a respeito da autora é demasiado superficial. Por aqui dá-se a impressão de realmente tratar-se de uma intelectual. O que é falso. Basta ler a entrevista realizada pela Playboy em 1964 e assistir à de Mike Wallace, em 1959, para constatar o discurso ideológico-falacioso daquela autora - uma filosofia (?) carente de fundamentos e que envergonharia mesmo os autores  liberais mais conhecidos, tal como Adam Smith - para fazer jus a essa corrente de pensamento, que hoje em dia, considerando seus defensores atuais, não nos diz mais nada.
Ayn Rand nasceu ainda na Rússia como Alisa Zinovyevna Rosenbaum, foi para EUA após a Revolução Russa bolchevique. Estudou filosofia em São Petersburgo. Nos EUA começou a trabalhar no cinema, nos estúdios de  Cecil B. DeMille.
Um estudo desinteressado aconselharia a ler a obra da autora, mas as premissas em que se baseiam desestimula qualquer intelectual sério, pois são muito explícitas em determinados pontos muitos controversos. Eu enunciaria três básicos:
1 - A classe produtora de riqueza são os capitalistas, empresários - eles deveriam ter liberdade total, sem interferência do governo;
2 - O homem deve mover-se pelo egoísmo e não pelo altruísmo - não devemos nos sacrificar pelos outros; não deveríamos pagar impostos;
3 - (Base de tudo, inclusive de 1 e 2) que o homem deve guiar-se exclusivamente pela razão;
Provar isso com apenas obras de ficção é possível, mas acredito que tal coisa seja de difícil realização. O que separa Marx de Balzac? O primeiro indica todas as suas fontes, diferentemente do segundo. Mas isso é só o começo. A obra de Balzac ainda possui todo o seu valor devido à verossimilhança e à crítica social. Não sei se encontramos isso em Rand, pois seu "objetivismo" é todo calcado em crenças e afirmações que seriam muito válidas na literatura de auto-ajuda, nada mais. Em todo caso, reafirmo, as premissas acima são explícitas e duvido que a autora as demonstre em sua obra. Pelo contrário, parece-me que ela quer - assim como incorreram nesse erro muitos autores - mostrar e não demonstrar.
Em todo caso, fico devendo algo mais consistente, da minha parte. Investigações para o futuro. Por enquanto, deixo as indicações abaixo, do que eu consegui selecionar de melhor:

1-A entrevista para a Playboy:
2 - Do site Diário do Centro do Mundo:
3 - Do site Esquerda Republicana:
4 - Do site Revista Dita & Contradita:
5 - Do site Instituo Ordem Livre (de tendência liberal e mais favorável à autora):

Uma entrevista de 1959, concedida à Mike Wallace, onde as ideias de Rand são expostas como uma "filosofia inovadora e desconhecida". De fato, poderia chocar um pouco à época, que não estava preparada para esse ultra-liberalismo, muito atraente nos dias de hoje:

É considerada hoje uma "libertária", assim como são denominados alguns ativistas de hoje em dia que recebem dinheiro de ONGs suspeitas. Então cabe uma questão: foi uma intelectual financiada pela CIA? Vamos investigar mais.