Postagens mais visitadas

sábado, 20 de agosto de 2022

La Ciociara, de Alberto Moravia. O bem e o mal na guerra.

MORAVIA, Alberto. A Ciociara. Trad. José Antonio Machado. São Paulo: Abril Cultural, 1983 (1957).

 

A Ciociara, Alberto Moravia - Janeiro de 2021

Ao ler este romance, não há como não lembrar dos filmes de neorrealismo italiano, de Roberto Rossellini e de Vitorio De Sica. Esta obra em particular é um relato da Segunda Guerra por meio de uma pequeno burguesa, ex-camponesa, mulher que possui uma loja na periferia pobre de Roma, cidade prestes a ser ocupada pelos aliados e por eles bombardeada; mas ainda sob o domínio alemão. Ela foge de Roma, com a filha, para o campo, onde supostamente poderia encontrar paz e alimento. Mas as coisas não andam conforme ela planeja. A guerra também alcança o meio rural, causando fome, destruição, violência, perda dos valores tanto morais quanto materiais. Ela leva consigo um tanto de dinheiro que pensava ser útil na fuga para o interior. No entanto, percebe que isso foi pouco, insuficiente e às vezes inútil. Assiste a uma degradação humana, onde os humanos se tornam insensíveis, amorais e oportunistas. Um grande drama envolverá sua filha, Rosetta, a qual tenta proteger a todo custo. 

Há um filme de mesmo nome do título original, La Ciociara, lançado aqui com o nome de Duas Mulheres, de Vittorio De Sica. São obras diferentes. Leia o livro. Além daquele eu sugiro outros filmes do neorrealismo italiano, como Roma, cidade aberta, de Rossellini.Ciociara é uma região periférica de Roma, e o termo acaba carregando esse significado, aludindo e simbolizando lugares afastados e empobrecidos de Roma. Portanto, La Ciociara seria algo como "A periférica".

Personagens principais: Cesira, a mãe e Rosetta, a filha. Michele, um intelectual que elas conhecem no campo. Com este é que elas vão obter revelações que mudam suas formas de pensar. Uma epifania sobre a guerra e os homens.

 

Sinopse 1ª Parte (sem spoiler):

Cesira é uma ex-camponesa que se mudou para Roma após casar-se, vendo-se obrigada a tomar conta de uma pequena loja após a morte do marido e ao mesmo tempo tendo de cuidar da educação da filha. Após a invasão e ocupação nazista, Cesira e Rosetta saem de Roma para se refugiar no interior. O trem que as conduzia não pode prosseguir o seu destino devido aos bombardeios que atingiram a estrada; fazem o resto do percurso a pé.  As duas mulheres se refugiam então em um pequeno vilarejo de Santa Eufemia, com a esperança de retornar tão logo Roma fosse libertada pelos aliados. Nesse lugar Cesira entra em contato com outros refugiados e conhece Michele, um jovem intelectual pacifista que provocará mudanças no seu modo de ver a vida e o mundo.

 

Sinopse 2ª Parte (com spoiller):

Com a chegada dos aliados, todos regressam para suas cidades, inclusive Cesira e Rosetta. Durante a viagem de retorno, muito difícil, as duas mulheres se refugiam em uma igreja abandonada e são violentadas por um grupo de soldados marroquinos, uma tropa auxiliar dos... aliados. As privações e opressões passadas no meio rural, bem como toda essa violência física e moral, alterarão a visão sobre a guerra e sobre a existência humana que as duas mulheres tinham até o momento.

 

 

Comentário.

Há muita dor, violência e desumanidade na guerra. Duas mulheres, periféricas, saem de um estreito mundo pequeno burguês e perdem a inocência de forma violenta e começam a ver o mundo de outra forma. Esta pode ser uma história de desencantamento do mundo, mas também de consciência de que ele é habitado por gente de toda espécie, boa e má. Se há quem que se aproveite desses momentos sórdidos, também há quem queira ajudar e cooperar. E tentar fazer renascer um novo mundo, se não de todo bom, mas melhor. É o papel de Michele neste romance. Daí a comparação, ao final dele, com Lázaro, aquele que ressuscita. Ressuscita a esperança, a esperança não de esperar, mas de esperançar. Atuar neste mundo com mais amor, mas sem inocência, sem ingenuidade. É preciso fazer frente, combater o mal. O mal avança só quando o bem recua (Santo Agostinho, Confissões).


Passagens do livro:

 

[não basta instruir - é preciso bom uso]

Quis descrever esse nosso primeiro serão com os Morrone (assim se chamava a família) porque, uma vez descrito o primeiro, ficam descritos todos os que seguiram, rigorosamente iguais, e também porque naquele dia comi de manhã com os refugiados e à noite com os camponeses, ficando assim em condições de notar as diferenças entre ambos. Digo a verdade: os refugiados eram mais ricos, pelo menos alguns; com eles comia-se melhor; sabiam ler e escrever; não calçavam tamancos, e as mulheres andavam vestidas como as da cidade. No entanto, desde esse primeiro dia, e depois cada vez mais, preferi sempre os camponeses aos refugiados. Esta preferência devia-se não só ao fato de eu ter sido camponesa antes de ser comerciante, mas sobretudo à estranha sensação que experimentava junto dos refugiados, em especial se os comparava aos camponeses: era gente a quem a instrução só servira para os tornar piores. Um pouco como acontece com certos rapazes turbulentos que, mal entram na escola e aprendem a escrever, a primeira coisa que fazem é cobrir as paredes com palavrões. Enfim, em minha opinião, não basta instruir, é preciso sobretudo ensinar a fazer bom uso da instrução. (p. 77)

 

[escassez da guerra]

Quem nunca se encontrou em condições semelhantes, com dinheiro que praticamente não valia nada, estranho entre estranhos, no cimo duma montanha, e não sabe o que quer dizer a falta de comida em tempo de guerra, não poderá compreender a alegria com que acolhemos Tommasino. São coisas que é difícil explicar: normalmente, quem vive na cidade, onde há armazéns cheios de tudo, não acumula provisões em casa, pois sabe que em qualquer altura que precise vai às lojas e encontra-as bem fornecidas. Assim, convence-se de que comprar nas lojas o que lhe faz falta é uma coisa absolutamente natural, tal como as estações do ano, a chuva e o sol, a noite e o dia. Ilusão! As coisas podem faltar de repente, como faltaram de fato naquele ano, e então todos os milhões do mundo não chegam para comprar um pedaço de pão, e sem pão morre-se de fome. (p. 86)

 

[ignorância do bem e do mal]

Os aviadores que jogavam as bombas não sabiam nada de nós nem dos nossos monumentos; a ignorância tornava-os tranquilos e sem piedade, e a ignorância, acrescentou Michele, é talvez a causa de todas as nossas dores e das dos outros, porque a malvadez não é senão uma forma de ignorância, e quem sabe não pode verdadeiramente fazer mal. (p. 155)

 

[senso de justiça]

Queria perguntar-lhe como explicava que aquele nazi tão feroz, que sentia prazer em queimar gente com o lança-chamas, fosse capaz ao mesmo tempo de se impressionar com a injustiça que reinava na Itália. Michele dissera-nos sempre que só sentiam a injustiça as pessoas de bem, os melhores, os únicos que ele não desprezava. E eis que aparecia aquele tenente, ainda por cima filósofo, que sentia e censurava a injustiça e simultaneamente tinha prazer em queimar gente. Seria possível? Então, no fim de contas, a justiça não era uma coisa boa? Mas não tive coragem de lhe comunicar as minhas reflexões, pois via-o abatido e triste. Assim deixamos o vale e chegamos a Santa Eufêmia, onde já escurecera. (p. 170)

 

[Instintos sombrios]

Em suma, como já disse, a guerra não quer dizer só matar, mas também roubar; e aquele que em tempo de paz não mataria, nem roubaria por nenhum ouro do mundo, em tempo de guerra encontra no fundo do coração o instinto de roubar e de matar que há em todos os homens; mas encontra-o porquê o encorajam a encontrá-lo, dizendo-lhe a todo o momento que aquele instinto é bom e deve ser atendido, doutor modo não será um verdadeiro soldado. Então ele pensa: “Estamos em guerra... tornarei a ser aquilo que na realidade sou quando voltar a paz... por agora, deixo-me ir ao sabor da corrente... “Infelizmente, ninguém que tenha matado e roubado, ainda que seja na guerra, pode esperar vir a ser alguma vez o que era antes, pelo menos em minha opinião”. (p. 181)

 

[normalização da guerra]

Isto serve para dizer que nos habituamos a tudo e a guerra pode tornar-se um hábito, e aquilo que nos modifica não são os fatos extraordinários que acontecem uma só vez, mas sim esse hábito, essa longa aceitação das coisas contra as quais deixamos de nos revoltar. (p. 190)

 (...)

Ah! A beleza pode ser apreciada com a barriga cheia; mas, com a barriga vazia, todos os pensamentos vão dar ao mesmo, e a beleza parece um engano ou, pior, uma troça. (p.190)

 

[ressurreição]

A dor... Voltou-me ao pensamento Michele, que não estava ali conosco nesse momento tão suspirado do regresso e nunca mais estaria junto de nós, lembrei-me daquela noite em que nos leu em voz alta, na cabana de Santa Eufêmia, a passagem do Evangelho sobre Lázaro, zangando-se porque os camponeses não tinham compreendido nada e gritando que estávamos todos mortos à espera da ressurreição, como Lázaro. Então, essas palavras de Michele tinham-me deixado na dúvida; agora, sim, compreendia que Michele tinha razão e que durante algum tempo também Rosetta e eu estivéramos mortas, mortas para a piedade que se deve aos outros e a nós próprios. Mas a dor viera salvar-nos no último momento; e assim, de certa maneira, a história de Lázaro aplicava-se também a nós: graças à dor conseguíramos por fim sair da guerra que nos encerrava no seu túmulo de indiferença. (p.286)


quinta-feira, 12 de maio de 2022

A retomada da hegemonia americana. Maria da Conceição Tavares, 1985

 


terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Catástrofes & Tragédias - Cenas de um roteiro conhecido


"...a natureza não se submete a nenhuma medida ou forma precisa..." 

(J.-J. Rousseau, Carta ao Senhor de Voltaire)



Transbordamento de rios com inundação de cidades, rompimento de barragens, acidentes com embarcações, turistas perdidos em caminhadas, deslizamentos. Catástrofes, acidentes ou crônica de uma tragédia anunciada?

Em apenas uma semana uma série de “tragédias” atinge o Brasil, em várias regiões dos estados, no começo de Janeiro de 2023.

Quando se deu o terremoto de Lisboa em 1775, a cidade ficou bem destruída; muitos entenderam como um castigo dos céus, ainda mais porque ocorreu justamente no Dia de Todos os Santos (1 novembro). Mas o filósofo J. J. Rousseau questionou isso, afirmando que, ao fim e justificadamente, aquelas pessoas não poderiam estar ali. [1]

 

Podemos transpor essa reflexão para os dias atuais, seguindo o grande filósofo. O que as pessoas estão fazendo naqueles espaços onde ocorrem estas “tragédias”? Evidente que não temos liberdade total para escolher onde morar, onde passear e principalmente onde trabalhar. Essa liberdade é muito relativa em nosso cenário de mundo capitalista. Mas não se trata de condenar as opções e escolhas individuais, pois as ocupações, ao fim, são coletivas e resultado de orientações econômicas e políticas públicas. Ou da falta delas. Abrir um hotel resort numa área de preservação ambiental -- onde não se deveria fazê-lo  --  envolve capital e interferência de órgãos públicos. A mesma lógica vale para todas as outras atividades econômicas, mesmo quando clandestinas, pois a ausência do estado é muitas vezes um ato comissivo, e não passivo -- como podemos constatar pelas atividades da mineração. A falta de planejamento, fiscalização e regulação são condutas correlatas e que levam, geralmente, depois do ato lesivo ao meio natural, a regularizações e ajustamentos que só beneficiam os infratores. Se assim já nos conduzíamos, o que vale ressaltar é que nos últimos cinco anos, ao menos, isso se multiplicou e explodiu.

 

Some-se a isso tudo ao desmatamento tanto da floresta amazônica quanto do cerrado. Na verdade fica difícil identificar fenômenos originários, eminentemente naturais, dado que interrelacionados de forma complexa. As chuvas estão aumentadas em determinadas regiões devido ao desmatamento de outras vizinhas? Chove demais e as barragens não suportam porque foram mal dimensionadas ou porque houve superexploração da área mineradora? Turistas morrem porque são desobedientes ou porque a indústria de diversões “ecológicas” não pode diminuir seu faturamento, constituindo-se em atividade predatória do meio?  Pessoas ficam desabrigadas porque escolhem mal o lugar para morar ou porque falta planejamento urbano e racionalidade na ocupação do espaço?

 

A mídia vende a ideia de que as tragédias desse tipo são de ordem simplesmente natural, uma fatalidade. Ou então põe a culpa na Mudança Climática (já se tornou um sintagma de grande utilidade midiática), com o seu principal inimigo: a queima de combustível fóssil e consequente emissão de gases de efeito estufa.

Erro de interpretação ou má fé. Ou ambos, já que a mídia se alimenta dessa contaminação entre um efeito e outro, atribuindo a causa a um único fator.

Enquanto não for compreendida a ação antrópica sobre o meio, os únicos que sofrerão serão os menos favorecidos (e mais desavisados) da população. Grandes empresas já contemplam esse risco em seus negócios, não apenas do ponto de vista econômico, mas também em termos de imagem. Tudo calculado. No entanto, entre a população atingida, dificilmente alguém é devidamente indenizado após esses "trágicos acidentes naturais". Pequenas empresas, especialmente as turísticas, fecham suas portas, os donos desaparecem, vão explorar outras áreas com outra personalidade jurídica. O poder público toma medidas paliativas, dificilmente as corretivas. O governo federal geralmente ajuda com aporte de dinheiro, que engrossa o caixa estadual, de imediato. A partir daí dependerá da vontade do governador de Estado. A demora dos moradores em receber ajuda é uma prática constante e antiga [2].

 

Se a administração pública abre mão de suas funções, os que mais sofrem com esses revezes serão justamente aqueles que mais ajudam a financiar a mesma administração, que deveria ser preventa e reorganizar o espaço de modo a que estas pessoas não sobrevivam em determinas áreas. Pelo contrário, aproveitam a oportunidade para aplicar políticas duras e desfavoráveis à população. Esse tipo de trato está bem descrito na obra de Naomi Klein, “Não basta dizer não” – na política do choque. [3]

A administração pública, sob o ponto de vista da organização do ecúmeno (onde os homens podem habitar)  é uma questão política e de estado. Então quando catástrofes incorrem em grandes tragédias, é para a política que deveríamos voltar nossa atenção... E onde está o chefe de estado nessas horas? Tirando férias ou visitando as vítimas? Oferecendo ajuda federal aos estados? E o governo do Estado? Tomará medidas preventivas para o próximo evento -- que é perfeitamente previsível?

P.S.

Nos primeiros dias de Fevereiro de 2023 ocorre um terremoto de grandes proporções na Turquia, numa região em que já se sabia da ocorrência desse fenômeno. É de se observar duas coisas: as construções continuaram a crescer; o tipo de construção era inapropriado para um lugar desses. [4]

Neste mesmo ano, em novembro, ocorre a “tragédia de Gramado” [5], peça com roteiro já conhecido, mas mesmo assim encenado.

 

[1] ROUSSEAU, J.J. "Carta de J.-J. Rousseau ao Senhor de Voltaire (1756)". in: Carta a Christophe de Beaumont. E outros escritos sobre a religião e a moral. São Paulo: Estação Liberdade, 2005. pp. 121 a 137

[2] https://www.camara.leg.br/noticias/398997-no-rio-de-janeiro-desabrigados-ainda-nao-receberam-moradia/

[3] KLEIN, Naomi. Não basta dizer não. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2017.

[4] https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/especialistas-dizem-que-a-turquia-nao-aprendeu-o-suficiente-com-o-passado/

sábado, 1 de janeiro de 2022

31 obras em 2021

 

Termino o ano de 2021 com 31 livros lidos, 8 textos e 14 contos (de E.A. Poe). Algumas obras iniciadas e não terminadas, somando-se a uma pilha de mais de 60 que não termino há anos. 
É pouco,  tendo em vista anos anteriores, onde já consegui a marca dos 50 livros. Sou lento. E o tempo é curto. Decidi ler e contabilizar livros (diga-se obras) integrais a partir de um momento na minha vida que percebi haver lido centenas de textos acadêmicos, mas poucos livros em comparação.
Vou compartilhar com vocês essas 31 obras, como se fossem sugestões para leitura. Portanto, estão aqui não resenhas, mas descrições simples das obras. 

Jan
1 - Alberto Moravia, A Ciociara
Adoro este autor italiano. Já havia lido dele Os Indiferentes. Não há como não lembrar dos filmes de neorrealismo italiano, de Rossellini, embora quem tenha filmado A Ciociara foi Vittorio De Sica. O livro em questão é um relato da Segunda Guerra por meio de uma comerciante, pequeno burguesa, uma mulher que possui uma loja em Roma, numa região pobre da cidade - daí o nome, a denominação local, Ciociara - prestes a ser ocupada pelos aliados e por eles bombardeada, posto que sob o domínio alemão. Ela foge de Roma com a filha, para o campo, onde supostamente poderia encontrar paz e alimento. Mas as coisas não andam conforme ela planeja. A guerra também alcança o meio rural. O filme, La Ciociara, lançado aqui com o nome de Duas Mulheres, é uma obra distinta. Sophia Loren, que faz o papel de Cesira, mãe de Rosetta, poderia muito bem passar por irmã desta. No livro a personagem Cesira é alguém de aparência menos jovem. Assista ao filme, mas leia o livro. 

2 - Jorge Amado. A morte e a morte de Quincas Berro D'Água. Record.
Uma reflexão não apenas divertida sobre a morte. Na minha opinião Jorge Amado está aqui no seu melhor, digamos, materialismo. Bem melhor que Capitães da Areia, segundo meu entendimento.  
A morte de Quincas é encarada de duas maneiras: lúdica pelos amigos, trágica e cerimoniosa pela família, que quer um velório na sua forma tradicional, segundo os preceitos religiosos. Quincas foi um funcionário público de baixa hierarquia e enquanto exercia a função comportava-se de modo exemplar. Quando se aposentou passou a levar uma vida devassa e irresponsável. Por outro lado adquiriu muitos amigos e grande estima entre eles, a maior parte "malandros", desocupados e congêneres. Colegas de farra. Estes, contrariando a família do defunto e clandestinamente, resolvem levar Quincas (o corpo dele) para um último festejo, uma última noitada. A partir daqui seria melhor vocês mesmos lerem o livro, pois há spoiler. Durante a festa, que se realiza numa embarcação, o corpo de Quincas, acidentalmente, cai ao mar. Seria esta sua segunda morte. Ou as duas mortes são por conta da família vê-la de uma forma, os amigos de outra? Pois existiram dois Quincas: aquele enquanto era funcionário público ativo e estimado pelos "corretos"; outro, aposentado e devasso, estimado pelos "marginais".
Não escolhemos como seremos velados. Nem como seremos lembrados. Jorge Amado faz aqui uma crítica irônica à instituição do corpo velado religiosamente e mostra que o luto não é monopólio de ninguém. Nem mesmo da família.   
  

3 - Lilia Schawrcz. A bailarina da morte. Cia das Letras.
História da gripe espanhola no Brasil no começo do século XX. Aqui também  o vírus da gripe, tal como na Europa, foi devastador, ainda mais num ambiente em que as autoridades insistiam em negar o problema, ao menos inicialmente. Incrível como as coisas se repetem. E como quase farsa. Interesses políticos e econômicos prevalecendo sobre a saúde pública. O texto da professora Lilia é muito gostoso de ler, qualquer tema fica estimulante. E possui um didatismo sem abrir mão do rigor científico.

4 - Roberto daMatta. Fila e Democracia.  Rocco.
Quem não respeita a fila revela não ter muito compromisso com a ordem democrática. Lição banal. Roberto daMatta poderia ter ido mais longe e explorado alguns aspectos mais simbólicos relacionados ao assunto. Mas é um bom livro. Sugestivo. Mas não muito profundo. E um tanto parcial. Não emprega distinções de classe para a análise. E cabe a pergunta: quem desrespeita mais, o rico ou o pobre?

Fev
5 - Nicolau Sevcenko. A Revolta da Vacina: mentes insanas em corpos rebeldes. Unesp. 
Obra de juventude do autor. Espetacular. Obra de verve; autor ama seu objeto de análise. Ponto de vista dos derrotados, dos oprimidos, mostra um poder republicano e positivista que se impõe bem ao seu modo: pela força, mas não só: truculência, ignorância, falta de empatia para com os mais humildes e desfavorecidos. Essa seria a marca da República que então se instalava. A história se repetiria, claro. 

6 - Mário Palmério. Vila dos Confins.  José Olympio. 
Uma obra prima ignorada. Incrível como temos escritores que escrevem no melhor de nossa língua e são esquecidos. Vila dos Confins retrata a modernização da política coronelista no meio rural, onde o voto é disputado de várias formas, não só com oferecimento de cargos e emprego, mas por meio da força e da astúcia. Várias histórias entremeiam o enredo. Narrativa cativante. Recomendo a todos. Há muito tempo eu queria ler Mário Palmério. 

7 - Maria Helena Martins. O que é leitura. Ed. Brasiliense.
Um pequeno estudo sobre a importância do hábito da leitura. Um pouco breve demais, mas serve como introdução aos estudos do tema.

Mar
8 - Siddharta Mukherjee. As leis da Medicina. Alaúde. 
O autor relata algumas de suas experiências, traduzidas como hipóteses científicas. Poderíamos considerar um manual de deontologia para nossa pobre medicina no Brasil. E também um manual de ética médica, cuja observação aqui nos trópicos se revela ainda mais pobre. Enquanto nossos médicos não pensarem a medicina como ciência, ao invés de alpinismo social, tudo permanecerá muito pobre. 
 
9 - Monteiro Lobato. Urupês. Globo.
Obra fundamental e obrigatória para conhecer um certo Monteiro Lobato. Até então eu tinha lido um livro de fábulas e algumas histórias do Sítio do Pica Pau. É aqui que está o Lobato que devemos estudar sociologicamente, pois o conto-tese do caboclo brasileiro está neste livro. Sim, o tal de Jeca. Trata-se de um olhar naturalista-positivista, e evolucionista, do tipo darwinismo social. As teses racistas, cientificamente fundamentadas, ainda estão em pleno vigor neste ano de 1918, edição do primeiro livro. É um Lobato jovem-autor. Evidente que as teses sobre as raças sofreriam lenta revisão. E Lobato o fez, ainda que tarde, bem mais velho. Talvez tarde demais. Motivo suficiente para lhe escapar o epíteto de modernista, ainda que seu texto o seja bem assim, ao menos em termos de linguagem. Não seria o único deslize de Monteiro Lobato. E também não seria o único arrependimento. 

10 - Evegny Morozov. Big tech: a ascenção dos dados e a morte da política. Ed. Ubu.
O tema mais atual em termos de aplicação das novas tecnologias: dados e empresas de bigdata. O autor demonstra como as Bigtech's se enriquecem de forma absurda invadindo e conformando o dia a dia das pessoas, com a exploração da locomoção, da alimentação, da compra e venda de objetos de consumo, da diversão, etc. O planejamento social, por meio de políticas públicas, fica fora de questão. Os governos, especialmente das cidades, abrem mão da administração da urbe em favor da terceirização, sob a tutela das bigtech's, tal como o Uber. Boas reflexões sobre o poder econômico e político dessas gigantes. E também sobre a escravidão algorítmica que se instala no mundo. Decididamente, a politica morre.
 
11 - Monteiro Lobato. Negrinha. Globo.
Um Lobato que faz a denúncia dos mal tratos no corpo negro, no conto que dá nome ao livro. Mas é pouco para redimi-lo do racismo, que à época tinha o embasamento e status de ciência.  Mas há contos muito interessantes nesta obra e o autor se mostra interessante sob vários aspectos literários. 

Abr
12 - Epicuro. Carta a Meneceu. Unesp.
Se quisermos reduzir a uma frase, o livro trata da felicidade. Mas qual? Como todo filósofo antigo, felicidade é filosofar. É isso que traz à pessoa paz e saúde. A angústia do sofrimento deve ser afastada, se quisermos ser felizes. Felicidade então é não sofrer, equilibrando os prazeres (ataraxia). Então temos uma verdadeira ascese por meio de uma ética, uma conduta que nos leva à felicidade. Desculpem resumir isso aqui de forma tão breve. 
Vale uma reflexão aqui. Todos os filósofos da antiguidade tinham condições de não trabalhar e, portanto, filosofar. Fica mais fácil controlar os apetites dessa forma. Não?

13 - Monteiro Lobato. Cidades Mortas. Ed. Globo
O fio condutor ou o painel de fundo destes contos são as cidades aqui retratadas por Lobato, cuja característica comum é decadência e o atraso econômico, e que lhe dão assim um aspecto de abandono. São cidades que já tiveram seu auge e perderam a energia, o impulso produtivo. Lobato observa numa dessas histórias o apego dos fazendeiros à produção de café.  São agentes que não conseguem encontrar outra solução para suas fazendas a não ser o café. Este, como sabemos, foi base de nossa economia na República Velha e  sempre esteve com seus preços à mercê dos mercados europeus. 
Mas as histórias são tão interessantes que é preciso estar bem atento a esses detalhes. 

14 - Celso Castro. General Villas Bôas: conversa com o comandante. Ed. FGV
Biografia do general que se entende comandante. Um lixo de ser humano. Vamos às qualificações. Vaidoso: acha-se um líder só porque suas ordens são obedecidas pelos subordinados (como se fosse possível fazer diferente). Preconceituoso em todos os sentidos: manifesta-se contra o "politicamente correto". O que quer dizer com isso? Quer dizer que é contra todas as políticas afirmativas, antirracistas, de gênero, feministas, etc. O grande "barulho" do livro é a declaração do general a respeito de sua mensagem no Twiter, que ameaçou o STF. Assume a autoria e o objetivo: a de pressionar o Supremo em manter a decisão sobre prisão em segunda instância. Por trás disso, a prisão de Lula. O golpe deu certo. E é assumido neste livro. Isso seria inacreditável em qualquer país civilizado, mas estamos no Brasil, né?  

15 - Luiz Jean Lauaud. O xadrez na Idade Média. Ed. Perspectiva.
O pequeno livrinho não é uma história exaustiva do xadrez na Idade Média, mas as várias visões daquele período sobre o jogo. Interessante é que tanto o amor quanto a guerra podem ser vistas no e representadas pelo xadrez. O que há em comum entre os dois? Talvez quase nada, a não ser pelo sentido lúdico. Tanto no amor quanto na guerra joga-se.  

16 - Olgária Matos. Adivinhas do tempo: êxtase e revolução. Hucitec. 
A filósofa é tributária dos ideais do Maio de 68. Este pequeno livro é repleto de reflexões bem pensadas a respeito daquelas ideias, ainda que o movimento tenha sofrido muitas críticas e expresse muita ingenuidade daqueles que o defendem, na opinião deste resenhador. Mas isso é outra história, para outro debate. Quem ler este pequeno livro vai se deparar com ponderações filosóficas muito interessantes.  

17 - Monteiro Lobato. Ideias de Jeca Tatu. Ed. Globo. 
O mote organizador aqui são as ideias que Lobato considera como de Jeca: as que não dão certo, os improvisos, as importações culturais gratuitas. Lobato tem razão com relação a muitas dessas "ideias de Jeca", especialmente no que diz respeito ao estrangeirismo da língua, as adoções estéticas importadas sem reflexão. Pena que Lobato rejeita tudo, também sem muita reflexão. 

Mai
18 - G.F. Kneller. A ciência como atividade humana. Zahar.
Livro indicado aos estudos iniciais da filosofia da ciência. Mas não só. Além de fazer um painel do emprego da metodologia científica, traz dados reais, as experiências, da história da ciência. Excelente.

19 - Lima Barreto. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Ática
As obras de Lima Barreto são, antes de tudo, uma narrativa realista e crítica do nascimento da República no Brasil. Este romance revela de modo surpreendente as maquinações entre o poder e a imprensa. Lendo este livro hoje, perguntamo-nos: o que mudou? Só a forma, só o suporte. O quarto poder atuou e atua do mesmo modo há muito tempo... distorcendo, modificando, influenciando e alterando a realidade, segundo seus próprios interesses, isto é, os dos donos dos meios de comunicação.

Jun
20 - Nilo Batista. Punidos e mal pagos. Ed. Revan. 
Um livro dos anos 1980 e que já discutia a injustiça de nosso sistema Judiciário: o encarceramento em massa dos pobres, a lentidão das decisões, entre outros problemas. É uma coletânea de ensaios da seara jurídica que conta com a experiência do autor junto aos tribunais.

21 - Rachel de Queiróz. O Quinze. José Olimpio. 
Uma das obras fundamentais para compreender o fenômeno da Seca em alguns de seus aspectos. Enquanto em Vidas Secas (Graciliano) o ponto de vista se dá a partir do olhar do retirante, do migrante, na obra da autora aqui este se dá muito mais pelos proprietários, pois a trama gira em torno de Vicente, dono da fazenda. A obra tenta retratar a grande seca de 1915. Daí o nome, O quinze. Na minha opinião a obra, embora rica em mostrar as desgraças sociais, resvala um pouco para um certo naturalismo, uma certa aceitação da paisagem.

22 - Clarice Lispector. Laços de Família. Rocco.
Obra de vestibular e consagrada entre nós. São várias histórias (contos?) que nos conduzem a labirintos indecifráveis (chavão?) das relações privadas. Cenas da vida privada, para permanecer ainda no lugar comum. O mundo que Clarice nos apresenta é ao mesmo tempo intimista e universal. Uma contradição, quase um paradoxo, mas a autora consegue dar conta dessa façanha. Já havia lido antes uns dois contos dessa obra. Gostaria de saber como uma autora tão incômoda (e de qualidade) pode ser tão popular. E no Brasil. 

23 - Luiz Carlos Bresser-Pereira. As revoluções utópicas dos anos 60. Editora 34.
Maio de 1968 apresentado por um grande nome dentre nossos economistas. Pena que esta obra é muito ingênua (e equivocada), ainda que bem escrita. A tese principal é a de que os estudantes são (seriam, então) os novos revolucionários, em vez da classe operária, que teria esgotado seu potencial de ação, suas energias de mudança, conformando-se aos moldes e à vida no capitalismo. Talvez tenha metade de razão nisso. Mas apresentar estudantes como novos revolucionários...  O interessante da obra é ela nos dá justamente a dimensão da ingenuidade intelectual dos estudantes envolvidos naquele movimento, a despeito da boa vontade de mudar o mundo. 


Jul
24 - Lejaune Mirhan. Relatos de Viagem: Síria e Líbano. Ed. Anita Garibaldi.
O professor Lejaune, junto a uma comissão, visitou os países Síria e Líbano, a fim de manifestar apoio às lutas contra o imperialismo e o terrorismo ali instalado por estas nações imperiais, especialmente os EUA. A viagem também serviu para colher informações a respeito da guerra e que não são divulgadas aqui ou ainda são fornecidas de modo distorcido. De fato, não há apenas desinformação a respeito do assunto: há uma farta produção de notícias com cunho nitidamente ideológico (e muitas vezes mentiroso) com o objetivo de legitimar as ações de guerra do Ocidente naquelas nações. 

25 - Clarice Lispector. Perto do Coração Selvagem. Rocco.
Às vezes pode parecer difícil entender a mensagem contida no texto de Clarice. Digo o texto, não a autora, no caso aqui. O enredo é completamente irregular, posto que realista (a realidade não como um roteiro de cinema), ou seja, não há o clássico início, meio e fim. Ou ao menos isso não é perceptível em Clarice. Os diálogos são truncados, pois as personagens não conseguem dizer tudo. A incomunicabilidade está sempre presente nas obras da escritora.  
Mas se prestarmos atenção, lá no final do texto (não da história) conseguimos extrair alguma coisa e, retrospectivamente, muitas outras. E na minha opinião uma delas é a da emancipação da mulher. Fica colocada a questão de ela poder dizer e poder decidir sobre sua própria vida. Então,  perto do coração selvagem, encontramos essa verdade. 

26 - Lenin. O Estado e a Revolução. Expressão Popular. 
A Expressão Popular vem reeditando esses clássicos que poucos leem e muitos citam. Aqui Lenin esclarece o que seria um estado popular, proletário. Se comparado ao que ocorreu na URSS então podemos extrair umas boas reflexões. Que não cabem aqui, evidentemente. Minha recomendação maior é pela edição da obra e pela editora. Visitem-na. Vale a pena. 

Ago
27 - Fernando Morais. Os últimos soldados da Guerra Fria. Companhia das Letras. 
Comprei e li este livro devido ao filme que foi produzido com base na obra. O título do filme (no Brasil, sempre algo ridículo) é "Wasp Network – Prisioneiros da Guerra Fria". Prisioneiros? O livro, fruto de uma boa investigação, relata as ações dos espiões cubanos que se infiltraram em grupos terroristas americanos (sim, americanos). A ilha vinha sendo alvo desses terroristas, que frequentemente invadiam o espaço aéreo cubano, instalavam bombas nos hotéis, assassinavam turistas nas praias... A ações antiterroristas deram alguns resultados, mas a maioria do grupo foi presa e condenada pela justiça americana, ignorando que aqueles queriam apenas desmontar a rede terrorista americana (cujos membros eram em grande parte exilados cubanos ou descendentes destes). Apesar de serem alvo do FBI, a investigação corria lentamente e a sensação que temos é que as ações terroristas eram encobertas pelo próprio governo americano. Enfim, o filme não faz jus ao livro, mas não apenas por que foi mal adaptado. Há falhas no roteiro, como a de, por exemplo, não mostrar os espiões que foram condenados. Outra falha (ou intenção mesmo) é a de introduzir uma narrativa in off entrecortada no enredo, emitindo uma informação que dava uma clara ideia de propaganda anticubana. 

Set
Sem completar leitura de livro; leitura de texto sobre preconceito linguístico.

Out
28 - Camilo Castelo Branco. Coração, Cabeça e Estômago. Ateliê. 
O livro descreve a vida de uma personagem, Silvestre da Silva, em cada uma das fases de sua vida regida por um destes órgãos: coração, cabeça e estômago. A fase do coração é a do sonho e da esperança de encontrar um grande amor. Silvestre sai de sua aldeia e vai para Lisboa, com esse fim. 
A fase da "cabeça" é a da razão. Trabalho intenso na área de crítica literária, na cidade do Porto. 
A última fase, "estômago", é da serenidade, a da resignação com o cotidiano, onde as preocupações giram mais em torno do que se vai comer do que se vai fazer. A fase das desilusões, diríamos. E a do retorno à aldeia, Soutelo, onde Silvestre se casa com uma mulher da região, Tomásia. 
Uma novidade narrativa da obra é a voz da personagem principal, que é retransmitida pelo editor das memórias de Silvestre da Silva; embora este seja o narrador da história, o editor é que a teria organizado, posto que amigo do então falecido Silvestre. Portanto, as vozes se fundem, pois depois do prólogo, em que este aviso é dado, não há como não esquecer este ponto. Este é o verdadeiro recurso metalinguístico, muito confundido por aí com a figura da citação. 

Nov
29 - E.A. Poe. Narrativa de Arthur Gordon Pyn. Ed. Aguilar.
Literatura quase fantástica de Poe, não fosse a verossimilhança com o real. Segundo um professor meu em meu curso na História, Poe dizia que seus contos e novelas eram enigmas e não mistério. O enigma é para ser desvendado. O mistério é para ser aceito, como um ato de fé, simplesmente.  Nesta história temos um jovem  que vai se aventurar no mar, mas entra clandestinamente numa embarcação. O navio sofre um motim e o jovem Pyn ingressa decididamente nessa desventura. A partir daí... leiam; indico como uma leitura do grande mestre do... mistério? 

Dez
30 - Itamar Vieira Junior. Torto arado. Todavia. 
É o livro surpresa deste  ano para mim. Há muitas análises interessantes a respeito do livro nas redes sociais (indico os vídeos de Isabella Lubrano, no YouTube). Portanto, não vou esmiuçar aqui a rica história contada por Itamar. A obra pode ser estudada de um ponto de vista sociológico. Impossível escapar ao tema da escravidão e, portanto, do racismo. São discussões que retornam e precisam, sim, serem largamente debatidas, pois o problema não deixa de existir apenas porque não falamos nele. 
Consoante tudo isso outras questão: a da terra. A da posse, ou da propriedade, ou do uso dela. Não importa, em qualquer caso nosso trata-se do acesso à riqueza, que foi negada desde sempre aos escravos, índios e seus descendentes em favor . Escrito numa narrativa quase atemporal, narra a história de duas irmãs negras numa comunidade que se reconheceu, no tempo, como quilombola. Está tudo aqui: a luta pela terra, o reconhecimento da identidade, a busca da liberdade, as batalhas contra o patriarcado, a eliminação de lideranças no campo. Obviamente que o romance nos parece atemporal. O Brasil muda pouco. Embora haja reconhecimento, nos dias atuais, de que o Brasil é um país urbano, o campo nos oferece um painel do país que não queremos ver. Sim. O trabalho escravo ou próximo disso ainda existe. E não é pouco. Há muitos trabalhos, acadêmicos e não acadêmicos, que relatam isso. Um deles, para não ficar aqui sem citação nenhuma é o investigativo trabalho de Leonardo Sakamoto. 
A exploração está diante de nós e a ignoramos. Queremos ignorá-la. Essa situação de algum modo não é exclusividade do campo: está transposta também para as cidades. É um legado. É uma herança. É uma permanência. Basta olhar para a exploração dos trabalhadores domésticos, aqueles que trabalham nas casas da classe média. 
A obra, em termos de linguagem, é também rica em recursos simbólicos, semióticos e estilísticos, cuja discussão não cabe aqui, pois falta-me aprofundamento nela. Para mim ela pode ser comparada às grandes obras de nossa literatura com o mesmo tema, como em O Quinze e Vidas Secas. 

31 - Fernando Morais. Lula: Biografia. Companhia das Letras. 
É talvez o livro do ano. A escrita sedutora de Fernando Morais nos conduz aos acontecimentos como se eles estivessem ocorrendo naquele instante. Sou suspeito para falar aqui a respeito de Lula. Mas realmente sua vida na política pode significar muitas coisas, mas para além da luta democrática, podemos resumi-la numa frase: a defesa dos mais pobres.
 






  







segunda-feira, 12 de julho de 2021

Relatos de viagem à Síria e ao Líbano.

MIRHAN, Lejeune. Relatos de Viagem: Síria e Líbano. São Paulo: Anita Garibaldi, 2015. 

Breve Resumo.

Trata-se de relatos, artigos e depoimentos de viagem  à Síria e ao Líbano pelo Comitê de Solidariedade ao Povo da Síria, consistindo na 1ª Missão de Solidariedade à Síria. Foram realizadas visitas a vários órgãos e partidos daqueles países. Sempre no sentido de obter informações e reiterar apoio à causa de defesa dos povos que lutam contra a opressão imperialista. Opressão esta financiada principalmente pelos EUA, com a ajuda e comando de Estados Fundamentalistas como a Arábia Saudita, dentre eles. Redes de grupos terroristas, mercenários e voluntários formam milícias e pequenos exércitos que invadem os territórios da Síria e Líbano com o fim de ajudar a depor regimes legítimos formados nestes países.

Entretanto, a resistência foi eficaz em refratar estes ataques, mesmo após a II Conferência de Genebra sobre a Síria, onde nações que se diziam "amigas" tentavam manobrar os destinos do povo sírio. A Conferência, a despeito de tudo contra a Síria, findou inócua e sem consensos. Resultou fortalecido o presidente Bashar Al Assad.

Uma equipe de seis pessoas ao todo para lá viajaram, representando várias entidades e partidos do Brasil, dentre eles o PCdoB e o MST, revistas e grupos de trabalho e grupo de estudos. Ao final subscreveram um Manifesto de Solidariedade ao Povo Sírio.

 

Comentário.

O livro −̶   instrutivo e bem organizado −̶   dá um panorama muito bom e quase completo do que está acontecendo verdadeiramente na Síria. Ocorrências e acontecimentos que a mídia ocidental simplesmente ignora ou distorce, o que é pior, invertendo os sinais dos atores em ação. Qual seja: tentando mostrar que é o Estado Sírio e os partidos que o apoiam é que são terroristas, quando na verdade trata-se do contrário. Os verdadeiros terroristas, exércitos fundamentalistas treinados especialmente na Arábia Saudita, são denominados "rebeldes" pelas imprensa ocidental −̶   com exceção da mídia alternativa, claro. Mas a Síria resiste, com apoio direto ou indireto de nações verdadeiramente aliadas: Irã, Rússia e China; países que não concordam com o tipo de interferência que os Estados imperialistas operam nesta faixa do globo.
Não se trata de relatos de combates, como alguns jornalistas pretendem vender uma realidade. São relatos de trocas de informações, notícias e estudos, enfim as impressões in loco do que está ocorrendo contra o povo e o governo legítimo da Síria, último reduto laico e pedaço de território muito cobiçado pelos EUA e aliados, cujos interesses geoestratégicos giram em torno do petróleo, principalmente. 
Há muito mais no livro. Recomendo fortemente como alternativa às notícias falaciosas que circulam por aqui tendo como referência aqueles países. O professor Lejeune Mirhan também possui um blog, de onde podemos obter mais sobre esta obra e outros estudos, além de poder adquirir seus livros [1]. 


Nota
[1] https://www.lejeune.com.br

domingo, 27 de junho de 2021

Do tráfico ao prato - Agência Pública

Do tráfico ao prato - Agência Pública: Entenda como o gado de um 'narcopecuarista' foi parar nos frigoríficos

sexta-feira, 14 de maio de 2021

O porquê de assistir à série "Grande Guerreiro Otomano" (Ressurrection, Ertugrul).

...a poesia é mais filosófica e mais elevada do que a história, pois a poesia se ocupa mais do universal, ao passo que a história se restringe ao particular... (Aristóteles, Poética, 1451b5)


Série turca que foi apresentada em forma de novela, tais como as nossas − quando nos bons tempos, em que se empregavam escritores novelistas de alto nível, como Dias Gomes.

 

Um bom argumento a favor da questão, que apresento já de pronto, é o de poder entrar em contato com uma dramaturgia e uma cultura bem diferente da nossa. E por dramaturgia entendo aqui no sentido amplo: a arte de representar − aquilo que Aristóteles denominava imitação da ação (Poética - 1448). Em outras palavras: o modo de representar dos atores, a expressão de seus rostos, a linguagem corporal e a simbologia dos gestos; a direção da ação; o roteiro da ação; a gravidade do drama, se realista, se romântico, se outra coisa.

 

Ressurrection é romântico, assim como a maior parte da dramaturgia contemporânea ocidental. Ao menos para aquelas produções mais comerciais, encenadas no formato de  narrativa mais clássico e onde a figura do heroi se destaca. 

 

Esta série (Dirilis Ertugrul, no original turco) não foge muito às regras comerciais, mas é possível perceber algumas (boas) diferenças − e para isso é preciso paciência para assistir aos primeiros capítulos e avançar nas cinco temporadas, de mais ou menos cem capítulos cada. Como eu já disse, trata-se de uma novela feita para a TV. Há cenas de muito choro, muito sofrimento, muito drama mesmo; um alívio: não chega nem perto dos dramalhões mexicanos. E há momentos de muita ação, lutas bem coreografadas, tensão e suspense bem ao gosto Hollywood. Mas com toques de uma outra dramaturgia, bem menos canastrona que as norte-americanas. 


Também como as séries ocidentais, há aqui um forte conteúdo ideológico. E é menos pelo motivo religioso que o político: uma certa ênfase nacionalista com  afirmação de valores culturais, sociais e religiosos.  

 

Os turcos aqui lutam por espaço, condicionados em uma geografia marcada por migrações constantes, seja pela busca de novos pastos, seja pelo crescimento demográfico. Nessa dinâmica, há o enfrentamento dos Cruzados (especialmente os Templários) de um lado e dos mongóis de outro, um a leste outro a oeste. 


Ressurrection é uma produção que se encaixa bem no projeto político de Erdogan, de edificação nacional, com apelo religioso[1].

 

Mas há nuances. A religião, embora uma constante, é apresentada de modo moderado, desfazendo visivelmente alguns estereótipos criados e imaginados por nós, não muçulmanos. Presente também a ciência, mais desenvolvida aqui neste mundo islâmico que no Ocidente Medieval Cristão. Um bom momento dos episódios são as aparições de Ibn Arabi, sábio filósofo da Andaluzia, cuja obra ainda não está totalmente estudada e elucidada, segundo a Wikipédia [2]. A conferir. 

 

A série, enfim, é uma ficção, uma bela suposição dos fatos que poderiam ter acontecido naqueles tempos (ao menos onde nossas fontes alcançam). No final da bela abertura de apresentação da série há esta advertência: "histórias e personagens desta obra foram inspirados em nossa história". Quem é historiador ou domina o mínimo de história sabe ou precisa saber que as fontes, escritas ou arqueólogicas, sobre esses séculos XII e XIII são mínimas. E as existentes são, muitas vezes, duvidosas, com acréscimos ou supressões. Não há como saber ao certo seus detalhes. 

 

Mesmo as aparições de ibn Arabi na história são uma incógnita. O que é certo para nós é que os turcos viviam em tribos, eram nômades e disputavam o espaço entre si; realizavam um comércio com o mundo muçulmano tanto quanto com o cristão e estabeleceram muitos entrepostos comerciais, garantidos por associações de tribos; combateram os Cruzados, a oeste, quanto os Mongóis, a leste;  combatendo estas frentes, unificaram-se sob Osman, filho de Ertugrul ("Arturo" é o som que parece ouvirmos), garantiram a ocupação de seus territórios e avançaram, durante séculos, rumo ao Império Bizantino, fazendo-o cair sob Mohamed, o então sultão no século XV. Se Osman é mais importante que Ertugrul, não se pode duvidar que este preparou o terreno para a unidade dos turcos, sendo assim um grande líder guerreiro.


A vantagem de uma série assim tão longa é a de perceber a complexidade do processo. Toda construção de uma identidade é uma elaboração lenta, admite um toque artificioso, e necessita de um discurso preciso e eficiente em torno da legitimidade da união. A montagem da série em forma de novela permite-nos a imagem desse quadro.


Mas vale a advertência deste humilde historiador: a história é mais modesta que sua crônica, mas muito mais complexa que seu resumo. 


Por tudo isso vale a pena assistir à série.  Até o fim. E capítulo por capítulo. 



Notas. 

[1] https://www.bbc.com/portuguese/internacional-44599658

[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Ibn_Arabi


Site confiáveis sobre história islâmica e islamismo:

https://historiaislamica.com/pt/quem%20foi%20ertugrul/

https://iqaraislam.com/o-califado-fatimida

https://iqaraislam.com/licoes-ertugrul