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sábado, 6 de junho de 2020

Ponto Final. Marcos Nobre - Resenha crítica


NOBRE, Marcos. Ponto Final: A guerra de Bolsonaro contra a Democracia.  São Paulo: Todavia, 2020.

O subtítulo dá a chave de entendimento do autor na análise do momento atual, tendo como presidente Jair Bolsonaro.

O presidente promove uma guerra contra a democracia. Este é o limite do texto: apenas contra a democracia? Bolsonaro é posicionado como um autoritário, que ganhou a presidência com um discurso anti-sistema, aproveitando-se com o descontentamento do povo/população com o próprio sistema. Sistema que girou em torno do que o autor denomina de "peemedebismo", conforme outro trabalho (Imobilismo em Movimento). A cultura política do bolsonarismo seria a da lógica da guerra — tomado o adversário como inimigo, tratando-se, no jogo político, de excluí-lo. Diferentemente da polarização, tal como se deu entre PT e PSDB na luta pela hegemonia política buscando conquistar o centro, a cultura política bolsonarista é antidemocrática; portanto, a convivência social na democracia torna-se assim inviável.
Essa lógica da guerra é camuflada pelo comportamento excêntrico e pela aparente "falta de inteligência" (ao ser chamado de burro). Para Nobre, há um método nessa loucura toda que transparece em suas ações e pensamentos. Na ação contra jornalistas, por exemplo, e no pensamento contra a "ideologia das minorias". "Ponto final", que dá título ao livro, expressa bem Bolsonaro em termos de diálogo:

"Não por acaso, 'Ponto-final' é também o nome que recebeu na Argentina a lei de 1986 que paralisou processos contra agentes da ditadura militar e que pretendeu fazer como Bolsonaro: impor o silêncio. Não funcionou. A lei foi definitivamente declarada inconstitucional em 2005, provocando a retomada dos processos e levando à prisão de  diversos agentes da ditadura, incluindo generais que ocuparam a presidência da república na Argentina." (p.12)

A crise — no caso agora do Covid e sua relação com a saúde — não nos tirou do normal, mas revelou um "normal" pela aceleração dos acontecimentos. Para Marcos Nobre, a crise revelou o arranjo frágil em que se movia nossa democracia: a tal busca da hegemonia (o autor não emprega este termo) a fim de uma melhor governança. Isso se dá pela conquista do "centrão" com a evidente troca de cargos (não só) por apoio político no Congresso. E assim pode se governar. Bolsonaro é ruptura com esse arranjo — em termos, já que levado agora a negociar com o Congresso, atacando pelo centro, é claro. Essa resistência em querer negociar, atacando as instituições, revela o projeto autoritário de Bolsonaro. Esse é o "normal" escancarado pela crise sanitária; normal que foi instalado em 2018 na eleição de Bolsonaro e cujo método é o caos, aparente loucura. Caos que se dá no dia a dia, seja pelo ataque às instituições, aos jornalistas, seja pelas declarações chauvinistas de Bolsonaro ou por suas mentiras, distribuídas metodicamente pelas redes sociais.
Enquanto manteve um apoio de um terço do eleitorado, apostou nessa metodologia sem apoio do centrão; uma vez diminuída sua base para um "núcleo duro" de dez, doze por cento, intenta buscar esse apoio, não sem dificuldades. Daí o autor falar em "partido militar" ou "partido dos militares", que faria esse papel de apoio às políticas de destruição de Bolsonaro. Embora não seja exatamente um partido, mas atue como um.
Seu projeto, portanto — ao confundir "democracia" com "sistema" — é autoritário.
Enfim, a fragilidade de nosso arranjo para governar — que se estabeleceu já no Plano Real, segundo o autor — revelou-se nas manifestações de Junho de 2013.

"Levantes conservadores não apontam para uma passivei construção de regras compartilhadas de justiça e seu estabelecimento sob a forma de regras democráticas institucionalizadas. Destacam a lacuna entre a 'vontade popular' e os mecanismos estabelecidos de representação política mas não acreditam possível muito menos pretendem, superar essa lacuna. Ao contrário, endeusam chefes - Bolsonaro é chamado de 'mito' por seus apoiadores - que seriam a verdadeira encarnação do povo e de sua vontade. É nesse sentido que "resolvem" o bordão do não me representa". (p.28)

Essa lacuna, representada também por evangélicos, militares e lavajatistas, principalmente, não pode ser preenchida pela simples representação política, pois a percepção de que o "sistema" é falho, não funciona, leva à busca de soluções autoritárias, como a de Bolsonaro, eleito por uma coalizão de conveniência, portanto. Logo, não é adequado explicar o que aconteceu em 2018 em termos de "PT" e "anti-PT", pois segundo o autor, isso leva a pensar o PT como organizador do sistema. [Na minha opinião não; não acho que não seja uma boa via de explicação; e não acho que leva a pensar numa centralidade organizadora do PT — longe disso]
Enfim, qual a razão desse "mecanismo" existir? Segundo Nobre:

"Destruir as instituições democráticas pela via eleitoral tornou-se possível no Brasil porque elas foram identificadas ao "sistema". No "sistema" que vigorou de 1994 - data de lançamento do Plano Real - até pelo menos as revoltas de Junho de 2013, a maioria dos partidos formou uma massa relativamente indistinta de máquinas políticas que se encastelam no Estado para se reproduzir. Foi assim que o "sistema" passou a ser identificado, especialmente após o chamado mensalão, em 2005, como inerentemente corrupto, como só beneficiando a si próprio, como causa do sofrimento da maioria da população." (p.39)

O que está em questão é a disputa pelos fundos públicos, dispostos no orçamento. Cargos nos ministérios, do primeiro ao último escalão, são "negociados" junto ao centrão, no Congresso. Em troca, o executivo consegue apoio para aprovar seu projetos e assim se procede a governabilidade. [não sem razão fala-se em "presidencialismo de coalizão", que na verdade, não há coalizão nenhuma, mas arranjo de interesses]


Para Bolsonaro, como deixou claro, a melhor democracia é a democracia tutelada, tal como se deu ou se tentou viabilizar (em termos) no regime pós-64.

"Apesar de toda a encenação antissistema, a manobra radical de autopreservação do sistema político continuou  funcionando muito bem, obrigado, no governo Bolsonaro. Conseguiu alcançar seu objetivo mais imediato e mais importante, que era manter investigados e réus fora da cadeia e politicamente atuantes. E ao mesmo tempo conseguiu minar o poder de mobilização da Lava Jato. Nisso, o governo Bolsonaro foi muito mais eficiente do que o governo Temer, aliás. Desapareceram as inúmeras fases da Operação Lava Jato." (p.45)

O final deste cenário é o colapso institucional que herdaremos em 2022, dado o progresso da destruição que é reproduzida.

Comentário. [trabalhar melhor estas questões]
De um ponto de vista da ciência política, o arrazoado de Marcos Nobre é verossímil, mas talvez não totalmente verdadeiro.
1. O arranjo peemedebista, em torno do centrão, não é uma prática que vem de 1988, consolidada no Plano Real de 1994. É um fato de longa duração, cuja origem já estava nos arranjos conciliadores do Império, a partir do II Reinado. Na República tal prática se consolidou, especialmente a partir dos governos dos estados, sendo reproduzida a nível federal quando o executivo não era ditatorial e exceto na República Velha, também, já que aí havia um mecanismo próprio de constituição de maiorias.
2. Nossa democracia é frágil, mas não desde 1988; é de bem antes. A CF de 88 foi uma oportunidade para estabelecer uma democracia sólida nos anos posteriores, mas não vingou por vários motivos, alguns poucos por causa da CF mesma, outros tantos a despeito dela. O arranjo do pacto federativo pode ser debitado na conta da Carta; a CF considerou o município como um ente federado, fortalecendo assim os poderes locais. Há outros fatores da Carta a considerar, tal como a divisão e redistribuição dos impostos.
3. O funcionamento do Congresso, a aprovação de projetos de lei — embora a engenharia de organização das casas tenha sido bem desenhada, houve brechas que terminaram por deixar o grosso da apreciação/aprovação das leis aos parlamentares, deixando o executivo muito dependente de uma base de legisladores que pudessem ser favoráveis ao governo.
4. A CF poderia ter avançado mais, na legislação comum, se fossem varridos os lixos do "entulho autoritário" (legado da legislação do regime de 64) e ainda não fossem removidas as partes democráticas (especialmente direitos sociais) da mesma CF. Em outras palavras, não apenas os dispositivos democráticos não foram ampliados, mas também foram mantidos os mecanismos autoritários, como a PM, por exemplo — por si só um problemão, já que serviram de força de contenção dos movimentos sociais, da mesma forma que faziam ainda durante o regime militar.
Sobre a "lacuna" de representação de que fala o autor: não foram apenas aqueles personagens sociais — militares, evangélicos, lavajatistas — que estavam sub-representados ou fora do sistema. Há uma massa enorme de pessoas, sub-cidadãos, não-cidadãos, que estão completamente fora de tudo da política e justamente estes é não foram às manifestações e nem empunharam a bandeira do "não me representa". A questão que fica é a que Nobre não responde: como essa minoria que se diz não representada pode ser tão decisiva; como esse contingente conseguiu impor tal narrativa, de uma vez que, sim, de alguma forma eles são contemplados tanto no sistema político quanto econômico.

Metodologia.
A análise de Nobre é, de alguma forma, coerente com a crítica imanente, da Teoria Crítica ("Escola de Frankfurt"). Podemos entender que sua crítica à política envereda a partir da própria política, fazendo emergir as aporias e contradições do sistema. Ocorre que, entendo, a crítica da política não deve mesmo transcender a ela, mas transcender dela. Em outras palavras, deve transbordar dela e buscar o que está sobredeterminado. Isso, ao meu ver, considerando a crítica imanente, que não é o único meio ou método de fazer uma análise política. Da mesma forma, tal análise poderia ainda levar em conta as classes sociais e suas transversalidades — o que não é realizado por Nobre.
Se feita a ressalva ainda pudermos obter alguma coisa, no que diz respeito ao fenômeno do centrão, ainda é necessário, como eu disse acima, considerar o momento histórico (o específico) e o fator de longa duração (o genérico), isto é, o que permanece — e como permanece — na nossa tradição política e como isso se relaciona à democrática.

Com relação ao texto, em si a narrativa, há algumas passagens que,  considero assim, o autor mostra-se um tanto arrogante. Como por exemplo: "Não há erro político mais fatal neste momento para quem pretende preservar a democracia do que ignorar todas essas distinções e sutilezas..." (p.70) E mais outras passagens onde o autor parece querer demonstrar que somente ele está iluminado a respeito de determinado detalhe. Uma outra passagem ele censura aqueles que chamam de Bolsonaro de "burro", pois o projeto do presidente, coerente com suas ações, indicam o contrário. Bem, depende do que se denomina de inteligência. Obviamente que há um projeto que aparentemente demonstra insanidade e há um método nele. Isso não exclui a consideração de que o presidente possui não apenas um QI muito baixo, mas uma completa falta de cultura em todos os aspectos, inclusive política e democrática. Que ele seja considerado "esperto", vá lá, dado que ele tem uma vasta experiência nos mecanismos congressuais. Falta de inteligência não exclui ninguém do poder. O que é preciso considerar, a sério, é o quanto essa estultice, essa falta total de refinamento obscurece o jogo político.  E aí pode se falar até em outras habilidades de inteligência do presidente, especialmente a de conseguir manter seu roteiro, sua narrativa semiótica, sua retórica da maldade.

Por fim, destaco a seguinte passagem:

"A raiva desmesurada que desperta o escárnio presidencial pela vida precisa encontrar a sua devida canalização institucional democrática, não pode transbordar no desejo de morte que seria, no fundo, uma confirmação da cultura bolsonarista." (p.70)

Acertada conclusão do autor. O único problema é realmente encontrar esse canal, que não deve ser único e nem necessariamente institucional. E talvez nem seja possível controlar assim tão racionalmente o desejo de morte. Tudo isso também deveria ser levado em consideração.





domingo, 28 de abril de 2019

Redes Sociais: arrastão eletrônico. Resenha do livro "A sociedade de Controle"

Fundamental para quem quiser entender o que está "por trás" das redes sociais, lugar onde as pessoas (pensam que) interagem livremente. Este livro diz: não, não há essa liberdade, mesmo a considerando de forma relativa. Ao ler este trabalho e entender os conceitos aqui desenvolvidos, será possível concluir que nas redes sociais não há o mínimo princípio de liberdade. São vários ensaios de vários autores especialistas no assunto e que vêm acompanhando a interação nas redes.


Em síntese, a manipulação é um conceito clássico da teoria que se convencionou chamar de "sociedade disciplinar", cujo expoente intelectual mais visível é Foucault, e por meio do qual ele explica os mecanismos de exercício de poder para se apropriar do corpo, docilizando-os, submetendo-os, até o limite da coerção física. É a prisão, é o hospício, etc., mas também todo o mecanismo social de controle: o relógio, por exemplo.

A tese da "sociedade da modulação" vem do filósofo Gilles Deleuze. Sociedade que teria o poder de modular, cristalizar subjetividades nas mentes das pessoas. É mais sutil, já que ocorre à distância — diferentemente da sociedade disciplinar, cuja autoridade está sempre próxima, inclusive fisicamente — e se propaga por frames ("imagens"), cujo meio pode ser qualquer um, TV, rádio, etc., mas modernamente é pela internet.  Os algoritmos são um dos instrumentos desse mecanismo de controle. É por meio deles que se alcançam os objetivos da modulação, seja para elaborar perfis de compras, seja para fins políticos e, também, ideológicos, disfarçados nas pesquisas de perfis psicológicos, por exemplo. Vender é o principal, mas não só. Como Chomsky diria, os algoritmos são uma máquina eficiente de fabricação de consenso (e talvez, por que não, de dissenso). Isso não seria possível sem o desenvolvimento pleno de um outro conceito, o chamado Big Data, que se trata de por em execução e processamento uma enorme e massiva quantidade de dados pelos algoritmos. O Big Data envolve conceitos de engenharia de banco de dados e processamento múltiplo, por meio do emprego de plataformas físicas que não precisam estar próximas. Outro conceito importante dentro desse ambiente é o de Machine Learning, que em termos simples quer dizer "Aprendizado de Máquina". Trata-se do princípio de que as máquinas, grosseiramente dizendo, podem "aprender" a fazer análises, trabalhando com quantidade de dados e cruzamentos cuja capacidade humana não alcança. Isso quer dizer que a máquina é capaz de "criar" seus próprios algoritmos, reconhecendo padrões que estariam fora de nosso entendimento, dando respostas mais precisas que as análises "manuais" (expostas como resultados aos seres humanos singulares).
Enfim, este pequeno e denso livro nos revela ou nos traz: 1)conceitos fundamentais que estão sendo empregados nas redes sociais pelas plataformas para controle e modulação dos usuários; 2)questionamentos e reflexões acerca deste funcionamento das redes; 3)um problema filosófico para pensarmos a respeito da Liberdade e da dita "sociedade livre" — que se confunde muito com a sociedade de consumo.
Leia urgentemente! 

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Do Processo Penal e a face Obscena da Justiça. Lição de Kafka.

El Greco - Christ on the Cross Adored by Donors 1585-90

Em um dos capítulos de "O Processo", romance de Kafka, mais exatamente o terceiro, K. (o personagem) volta ao tribunal, uma semana depois da primeira, para uma nova audiência, embora não tenha recebido a intimação, já que havia recebido apenas um telefonema de alguém do próprio tribunal, afirmando que haveria audiências todos os domingos.

Ao invés do labiríntico caminho, como da outra vez, K. encontra um modo mais direto (um atalho?) e chega à sala de audiência. Mas não há nada, não há sessão --  foi informado pela mulher que ali residia. K. entra e vê que a sala, de aspecto miserável, está mesmo vazia. Vê alguns livros em cima da mesa e pede para dar uma olhada, presumindo serem os códigos empregados para o procedimento da Justiça. Aquela Justiça,  que movia um processo contra ele. A mulher não permite que K. compulse os livros, mas por fim admite,  após alguma insistência. Finalmente, ao abrir os livros constata que são obscenos, pornográficos mesmo. E diz: "São estes, então, os livros de direito que estudam aqui! E são essas as pessoas que devem me julgar!".

O capítulo é metafórico, como todo o livro. Cabe interpretar a metáfora. K. descobre, por acaso, a face obscena do sistema que o julga: o das pessoas. São elas, com seus afetos, que vão enfim julgar sua causa. A imparcialidade e a impessoalidade é algo inexistente ou inatingível, partindo desse pressuposto. Os princípios enunciados pelo Direito tornam-se vazios. Somos julgados por gente que nos despreza e cujo ódio --  disfarçado de neutralidade, de impessoalidade -- nos é dirigido impiedosamente e desferido como um golpe de faca. Não por acaso, penso eu, os agentes da Justiça vestem-se de negro em suas sessões — é preciso disfarçar os afetos.

No real vivido encontramos o correspondente aos "livros obscenos" com que K. se depara: o mar de informações (verdadeiras ou falsas) espalhadas pelas redes sociais, pela mídia, pela imprensa, por revistas, que alimentam o rol de conteúdos os quais alimentam os agentes do poder. É por meio  desse caldo que podemos "descobrir" quais afetos as pessoas guardam consigo e quais os mobiliza contra os outros. Geralmente os piores, como podemos constatar nos últimos tempos.

Quanto à Justiça -- nela os nossos julgadores -- basta um boa leitura, atenta, de sentenças extraídas do processos (especialmente dos criminais, disponíveis em qualquer vara), para que se revele  o rosto obsceno do Judiciário:  as mais duras penas inflingidas contra as pessoas comuns, pobres em geral —  e que nos leva a concluir também sobre sua parcialidade e pessoalidade, enfim, mal (ou bem...) disfarçadas sob o manto negro das audiências.

 

Fontes:

KAFKA, F. O Processo. Cap. 3, de qualquer edição. 

BATISTA, Nilo. Punidos e mal pagos: violência, justiça, segurança pública e direitos humanos no Brasil de hoje. Rio de Janeiro: Revan, 1990.

terça-feira, 6 de junho de 2017

"Feios, Sujos e Malvados". Ita, 1976, Dir. Etore Scola. Crítica do filme.

Crítica do filme: "Feios, Sujos e Malvados". Ita, 1976, Dir. Etore Scola.

Mais um grande filme de Scola. Este sobre uma família, quase miserável, que vive em uma submoradia em Roma e sobrevive marginalmente na sociedade. O chefe da família, Giacinto, quer manter uma dignidade ilusória — a qual nem ele mesmo se orienta. A relação com a prole, numerosa, é tensa. Ele mantém um dinheiro escondido que poderia realizar o sonho de consumo de todos, mas mesquinhamente ele o guarda para si. Um dia aparece com uma amante, que convida para morar junto com todos. A mulher, cansada de tudo, não suporta mais este ato e trama com o restante a morte do patriarca. O intento não dá certo. Por sua vez, Giacinto trama uma vingança — primeiro tentando incendiar a casa, depois a vendendo a uma outra família, que quis tomar posse. Após uma pequena confusão, terminam por morar todos juntos, duas famílias numa casa só.
Uma grande questão, que está também presente em outros filmes de Scola, é a seguinte:  podem os pobres, sendo pobres, elevar-se de alguma forma? O acesso aos bens de consumo nos trariam algum benefício neste sentido? Numa noite Giacinto sonha que, por meio de seu dinheiro, consegue realizar o sonho de todos da família — eletrodomésticos, acesso à escola e à cultura. Quando desperta, a realidade é a mesma, mas o sonho o perturba, não muda sua conduta, continua avarento.
A crítica ao dinheiro é um aspecto subjacente nos filmes de Scola, mas aqui é mais direto. A guarda do volume de dinheiro —  tão mesquinha e miseravelmente escondido — é diretamente proporcional à pobreza vivida.

A família se aliena em busca de dinheiro e sobrevivência: um se prostitui como travesti, outro mendica nas ruas, outros empreendem furtos. Uma única figura, uma das filhas maiores, age mais "corretamente", cuidando da criançada e das tarefas diárias da casa. O restante vive no ócio ou na precariedade. Quando a avó — mãe de Giacinto que vive numa cadeira de rodas e assiste TV o dia inteiro — recebe finalmente uma pensão, todos querem se valer do "butim". Cabe a pergunta: sabemos que pode haver, mas é possível exigir alguma dignidade do ser humano nesta situação?

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Crítica do filme: 
O Massacre Em Guernica (Gernika)
Direção: Koldo Serra
Elenco: James d'Arcy, María Valverde, Jack Davenport
Nacionalidades: Espanha, EUA, Reino Unido, França


Filme fraco e parcial, contrariamente ao que já se disse sobre ele. Há muitos anacronismos. Por exemplo, mostrar que o serviço secreto soviético era apenas sectário e que não ajudou em nada. Outro, ainda pior: a crítica do filme que incide sobre a censura. O filme poderia ter ilustrado melhor o jogo de informação e contra-informação que está em disputa numa situação de guerra. Mas preferiu, anacronicamente, interpretar o assunto como se apenas a liberdade de imprensa estivesse em questão, ignorando os fatos da guerra mesma, muito diferente de uma situação de paz.

Além disso, os chavões de sempre: o heroi jornalista que acaba entrando na guerra e vai servir de contraponto à jovem censora Teresa. Tratamento superficial dos personagens. Profundo só o amor entre eles. Aliás, é o que elimina todo o restante do filme, que deveria ter como centro a Guerra, já que o nome, Guernica, justificaria o tema. Uma super produção de efeitos especiais que, ao fim, cuida apenas de um romance romântico entre um jornalista americano e uma funcionária espanhola. Quem procura lições de história, consulte outro lugar. Aqui só chavões e lugar comum.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A Puta, de Márcia Barbieri.



BARBIERI, Márcia. A Puta. São Paulo, Terracota, 2014.

O romance pode ser lido de várias formas: como uma narrativa do início dos tempos, então seria o Gênesis. Ou do fim dele, então seria o Apocalipse. Em ambas as formas encontramos o poder gerador e destruidor do sexo e da sexualidade. Nascimento e morte estão vivamente contemplados, demonstrados e vividos neste romance dialético, escondidos sob a apresentação aparentemente pornográfica. O pornográfico fica reduzido aqui apenas à linguagem (ou nem isso, porque não há apropriação, mas forma de expressão), enquanto os símbolos nos remetem ao contraditório das representações de gênero e de tipos, entendidos como persona - ou seja, o papel que se está assumindo no momento. Ou numa linguagem da psicologia junguiana, na forma de arquétipos.

Por isso mesmo a Puta, aquela que dá origem a tudo e a tudo pode destruir, constitui-se como a interface do mundo - e justamente por isso ela se relaciona com o Poeta, com o Filósofo, com Flamenca, uma mulher. Seria a Puta o self por meio do qual a humanidade se orienta? Talvez. Talvez o romance seja um desafio para ou o contraponto do poder do macho. Pode ser entendido assim das duas formas. De qualquer maneira, da Puta emana o poder feminino, que (inclusive) é um poder de fingimento, escamoteamento (tal como descrito à p. 76). Enfim, é um desafio para o mundo em que vivemos, especialmente os atuais.

A narrativa simbólica e a linguagem permeada de metáforas e de poesia, permitem múltiplas interpretações. Mas ao terminar o romance, tenho certeza de que o leitor terá uma imagem de transgressão como nunca experimentou na vida, pois o romance supera o tabu (no plano simbólico e não apenas da linguagem) em torno da figura que ninguém quer falar,  assumidamente, como fazendo parte de sua própria vida, ainda mais se lembrarmos que a prostituta é uma figura simbolicamente ambivalente [1] e, portanto, destruidora da identidade bem comportada.

O Estilo. O romance, inicialmente, não é fácil de ler - exige reflexão e assimilação a todo instante. Mas o leitor vai se acostumando à prosa um tanto poética e peculiar da autora. Falar em prosa poética é algo muito elementar para classificar o estilo do livro, pois ele é algo mais complexo que isso. A prosa contém poesia, sim, mas é de um simbolismo muito forte, de imagens vivas e bem carregadas no colorido.
Por meio desse simbolismo, que é gerador e destruidor ao mesmo tempo, conta-se uma história. Como dissemos, não é fácil de ler e acompanhar; no entanto, a partir de determinado ponto torna-se uma necessidade, uma certa dependência da leitura toma conta de nós - mas no momento certo, antes de se tornar um vício, o romance termina. E tal como num oráculo, a mensagem foi lançada. Cabe interpretar da melhor forma possível.


[1]JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis, RJ : Vozes, 2000. p. 199

sexta-feira, 31 de março de 2017

O Que Está Por Vir (L'Avenir), 2016, Dir. Mia Hansen-Løve. Crítica.

    O Que Está Por Vir (L'Avenir), 2016, Dir. Mia Hansen-Løve
    Sinopse:
    Nathalie (Isabelle Huppert) é professora de filosofia, tem dois filhos que pouco vê e um marido também docente, seu companheiro há 25 anos. Entre trocas de ideias com o pupilo anarquista, ligações insistentes da mãe solitária e piquetes de alunos, ela leva uma vida tranquila. Mas tudo está para mudar.

    Comentário.
    O que este filme talvez nos mostra é que as mudanças que se dão no mundo também nos alcançam, independente de nossa atitude mais ou menos ativa nele.
    Providencial que a protagonista seja uma professora de filosofia. Bom exemplo para refletir sobre a vida ativa e a vida contemplativa (de acordo com Aristóteles). A despeito de trabalhar como professora - dar aulas, corrigir provas e escrever livros - Nathalie leva uma vida absolutamente contemplativa. E bem burguesa, diga-se de passagem. As leituras não levam a ação; pelo contrário, levam à refração de qualquer atividade mais política ou engajada. Mas as coisas começam a mudar: divórcio, separação de bens, uma amizade com um jovem, a quebra de contrato com a editora, os protestos dos alunos frente às mudanças na previdência, a mãe doente, e um neto. Tudo isso agora "empurrando" a personagem para a ação, levando-a à atividade. Em cada círculo, uma reflexão prática, se podemos dizer assim: o divórcio: sair da relação acomodada, já que o marido, Heinz, comporta-se como apenas um colega de profissão; a amizade com Fabien: sair da acomodação contemplativa, dado que Fabien é um "ativista" e acredita numa alternativa social ao mundo capitalista; o trabalho na editora: sair da relação economicamente cômoda, pois é evidente que é o trabalho de escrever livros é que completa a renda; a mãe: sair da relação de filha, já que é obrigada a dar atenção cada vez maior à mãe, pois o estado social de bem-estar recua cada vez mais (lembrar da parte dos bombeiros); o neto: entrar na relação de avó, numa espécie de nova maternidade, um cuidado com a nova geração, pois o mundo é uma interrogação...
    O contexto do filme são as mudanças da França sob Sarkozy, o avanço neoliberal - momento que estão se discutindo as reformas previdenciárias, inclusive. Os alunos da professora querem fazer greve, em protesto às mudanças - mas o movimento está dividido. A professora nem quer tomar conhecimento. Está imersa em seu mundo contemplativo. Mas esse comportamento começa a se alterar com as próprias mudanças em seu meio - trabalho, família, amizade. Então, o que fazer? Acredito que seja essa reflexão que a diretora do filme quis que fízessemos. Por isso mesmo a trama não foi totalmente acabada; o filme termina em suspensão; os fios estão soltos para que nós mesmos façamos seu cerzimento. Não por acaso a filósofa embala um nenê, seu neto, uma promessa de futuro. É preciso ter esperança nas novas gerações.

    P.S.: A tradução melhor para L´Avenir talvez seja "o porvir", como o futuro. "O que está por vir", no português, pode dar a ideia do que imediatamente está por vir, algo que aconterá mais próximo de nós - essa ideia é uma decorrência do verbo auxiliar "está", que não deveria ser usado para a tradução.  
     A crítica equivocada, na minha opinião, é a do Do AdoroCinema. Leia no link abaixo: