O valor do trabalho no Brasil é algo muito baixo. Todos nós sabemos. Observemos a tabela abaixo, que qualquer um pode compreender facilmente.
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sexta-feira, 7 de maio de 2021
O valor do trabalho em BigMac
Nasceu em São Paulo, em 27/02/1962. É graduado em Ciências Sociais, História e Filosofia pela USP; licenciado em Sociologia pela mesma universidade. Possui lato sensu em língua portuguesa. Já foi professor, programador e analista de TI. Aprecia muito literatura. Atualmente é servidor público estadual.
quarta-feira, 7 de abril de 2021
Big Tech: ascensão dos dados e morte da política.
MOROZOV, Evgeny. Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política. Trad. Cláudio Marcondes. São Paulo: Ubu Editora, 2018.
Trata-se de uma reunião de artigos escritos
pelo autor desde 2014. Segundo Ronaldo Lemos (orelha do livro): "Morozov
é uma das vozes mais necessárias para se pensar o papel da tecnologia
hoje...".
Crítico da "indústria" do Vale do
Silício, Morozov não envereda, neste livro, por caminhos fáceis para refletir
sobre "inovação", "empreendedorismo", "economia
compartilhada", "IA" (Inteligência Artificial), "Big
Data" e outros tantos termos derivados das soluções tecnológicas. Na visão
do autor não será a tecnologia, especialmente a de softwares e aplicativos, que
resolverá nossos históricos problemas. Problemas políticos exigem resoluções
políticas. O maior inconveniente das
soluções por aplicativos e Big Data é que estas se voltam quase exclusivamente
para soluções individuais e não coletivas. A política como solução de problemas
públicos ficou esvaziada pelo discurso de que tudo pode ser resolvido pela
tecnologia. Ora, não só isso é improvável como não seria desejável. Improvável
porque as soluções tecnológicas advindas do Vale do Silício buscam resultados econômicos,
não sociais. Não desejável porque os verdadeiros problemas nunca são de fato
resolvidos: o desemprego, a precarização da vida e da saúde, o empobrecimento,
entre outras mazelas. E mais: as novas tecnologias aplicadas contribuem para um
déficit democrático cada vez mais maior, de uma vez que o espaço público é
constantemente reduzido e o consumismo, cada vez mais exacerbado, induz ao
isolamento entre os seres, criando verdadeiras "cercas invisíveis. Ao
invés de conectar, as redes terminam por separar as pessoas.
Há ainda o problema da vigilância do
cidadão: a observação contínua dos indivíduos, cujas escolhas são orientadas
por algoritmos, permite também a vigilância estatal pelo rastreamento de dados.
As fake news, subproduto das empresas de tecnologia de dados, tornaram
quase nulo o debate público e democrático.
Enfim, as opções tecnológicas não vieram
para "salvar" o mundo dos problemas. Ao contrário: elas se aproveitam
dos problemas estruturais do capitalismo −̶
como o dos transportes, por exemplo −̶
para obter lucros, enormes lucros. Não será com mais tecnologia que
iremos resolver nossos problemas, mas com política e decisões democráticas para
as grandes questões do momento, tais como a do meio ambiente, a segurança, a
desigualdade e outras tantas.
Evgeny Morozov, nascido na Bielorrúsia em
1984, é formado em Economia e Administração de Empresas pela AUB −̶ American University in Bulgaria. Formou-se
PhD em História da Ciência na Universidade de Harvard em 2018. É autor de
vários livros na área do solucionismo tecnológico.
Ronaldo Lemos é advogado formado pela USP e com mestrado pela Harvard. É professor e pesquisador na área de tecnologia e direito digital. (informações da Wikipédia)
Nasceu em São Paulo, em 27/02/1962. É graduado em Ciências Sociais, História e Filosofia pela USP; licenciado em Sociologia pela mesma universidade. Possui lato sensu em língua portuguesa. Já foi professor, programador e analista de TI. Aprecia muito literatura. Atualmente é servidor público estadual.
sábado, 20 de março de 2021
Desconstruindo Jeca. Uma leitura de Urupês.
LOBATO, Monteiro. Urupês. São Paulo: Globo, 2007 (1918).
Urupês, 1918. Primeira obra de Lobato, mas na
verdade, uma reunião de contos e artigos
já escritos desde 1914, quando já enviava cartas para uma seção do Jornal O Estado
de São Paulo. Os contos, publicados numa revista −̶ Revista
do Brasil, 1916 −̶ seriam reunidos, juntos aos
artigos, no livro Urupês. Obra que venderia bem, a considerar os números
de época, especialmente após uma menção à figura do caboclo por Rui Barbosa
numa de suas palestras.
Uma leitura atenta do conto "Urupês"
não escapa à consideração de um juízo no mínimo preconceituoso de Lobato. Não é
possível, no contexto da descrição, identificar uma intenção puramente
ficcional. Mesmo porque "Urupês" foi enviado como carta ao jornal O
Estado, em seguida de "Velha praga". Nesta, atenta para o problema
das queimadas; naquela, atribui a culpa ao caboclo. Embora possua uma aparência
de um conceito sociológico, devido aos traços acentuados da figura do caboclo,
na verdade trata-se de um prejuízo, pois a descrição é feita sem nenhuma
reconstrução, qualquer que seja ela. E, como dissemos, o caráter ficcional é
irrelevante, posto que também não há nenhuma construção. O conto é exposição
viva da observação direta do autor, quase nada mais. Se houver qualquer dúvida
quanto a isso, que se leia atentamente, repito. Mas o próprio Lobato nos diz:
"Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio na
realidade!"
(p.170)
E por aí vai. Muito bem escrito, observe-se.
Assim como todos os outros contos. Mas neste em especial é possível identificar
algumas ideologias de época, ainda fortemente vigentes, tal como a da
degeneração das raças. Jeca é um caboclo, mestiço de branco com índio, segundo
tal pensamento. E da "mistura de raças" teria se sucedido essa figura
que Lobato tanto execra. E o pior: o sangue branco teria origem também impura.
Vejamos este trecho:
"Dia virá em que os veremos [os caboclos],
murchos de prosápia [orgulho], confessar o verdadeiro avô:
−̶ 'Um dos
quatrocentos de Gedeão trazidos por Tomé de Souza num barco daqueles tempos,
nosso mui nobre e fecundo "Mayflower".' (p.169)
Gedeão é uma figura bíblica, um dos juízes de
Israel que teria libertado seu povo da invasão estrangeira, à frente de
trezentos seguidores (Juízes, cap. 7 da Bíblia). Lobato faz coincidir, embora
mencione quatrocentos, uma e outra coisa, simbólica e real −̶ os que
aqui desembarcaram, muitos em degredo, eram descendentes de judeus, agora
denominados "cristãos novos". É essa assimilação que sustenta também
a mítica dos trezentos ("trezentos deputados bandidos", etc) e a
mítica de que aqui se desenvolveu uma colônia de bandidos, já que de
"degredado" para "ladrão" é um deslocamento muito fácil. "Nosso
mui nobre e fecundo" é uma expressão de plena ironia cínica.
Obedecendo à "lei do mínimo esforço" o
caboclo, segundo Lobato, é refratário ao progresso:
"Seus remotos avós [os tais quatrocentos de Gedeão] não gozaram
maiores comodidades. Seus netos não meterão quarta perna ao banco. Para quê?
Vive-se bem sem isso."
(p.171)
Para Lobato o caboclo é tão preguiço que constrói
um banquinho com apenas três pernas, a fim de evitar maiores esforços. E
reforça logo em seguida:
"Da terra só quer a mandioca, o milho e a cana. A primeira, por
ser um pão já amassado pela natureza. Basta arrancar uma raiz e deitá-la nas
brasas. Não impõe colheita, nem exige celeiro. O plantio se faz com um palmo de
rama fincada em qualquer chão. Não pede cuidados. Não a ataca a formiga. A
mandioca é sem-vergonha." (p.172)
O caboclo, diz Lobato, é tão degenerado que seria
digno de um estudo de Silvio Romero. Bem conhecemos este: defensor do
evolucionismo à Spencer, sua obra é praticamente toda calcada nessa filosofia
[1].
Por fim, o livro Urupês, diferentemente do
conto, nos impõe outras observações. E outras contradições emergem, inclusive
contra o próprio conto homônimo. Mas esta, bem como a evolução intelectual de
Monteiro Lobato, é outra história. O que importa reter aqui é que este conto
"Urupês" é representativo de um novo marco no debate intelectual em
torno da mestiçagem. Debate que se perfilaria por todo o século XX, quiçá ainda
entre nós.
Notas.
[1]SCHWARCZ,
Lilia Moritz. O espetáculo das raças. São Paulo: Companhia das Letras,
1993. Cap. 1.
Nasceu em São Paulo, em 27/02/1962. É graduado em Ciências Sociais, História e Filosofia pela USP; licenciado em Sociologia pela mesma universidade. Possui lato sensu em língua portuguesa. Já foi professor, programador e analista de TI. Aprecia muito literatura. Atualmente é servidor público estadual.
sexta-feira, 5 de março de 2021
O homem que amava os cachorros - Leonardo Padura
No estilo de
romance policial, Padura reconstroi o assassinato de Trotski por Ramon
Mercader, ex-soldado revolucionário na Espanha republicana. Contratado pela
NKVD, Mercader, antes um ingênuo revolucionário, torna-se uma máquina de
obedecer e é por suas mãos que morreria Trotski, perseguido pelo Stalin ao
tempo de seu isolamento no poder, eliminando antigos e novos adversários. Não
da revolução, necessariamente, mas da concorrência pelo poder soviético.
Comentário.
Por meio de qual
alquimia um revolucionário se transforma numa máquina de matar e elimina outro
revolucionário? Como um bravo e romântico revolucionário é desconstruído e tornado num assassino? Como
o maior revolucionário da história é acuado até a última de suas forças e
eliminado em sua própria residência?
Essa é a história
de lutas e traições da luta, mas também da espiral revolucionária comandada
pelos bolcheviques, que souberam lidar com os reveses externos, mas também não
souberam comandar a luta e a construção interna da URSS. Stálin é apenas o
corolário dessa história.
O mérito de
Leonardo Padura é ter descrito essa história em romance policial,
magistralmente escrito de acordo com este estilo.
Nasceu em São Paulo, em 27/02/1962. É graduado em Ciências Sociais, História e Filosofia pela USP; licenciado em Sociologia pela mesma universidade. Possui lato sensu em língua portuguesa. Já foi professor, programador e analista de TI. Aprecia muito literatura. Atualmente é servidor público estadual.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2021
As cidades invisíveis. Italo Calvino.
CALVINO, Italo. As Cidades
Invisíveis. Trad. Diogo Mainardi. São Paulo, Companhia das Letras, 1990
(1972). == RESENHA CRÍTICA ==
I
Marco Polo, por meio de missões
diplomáticas, oferece suas descrições das cidades do Império Mongol para o
grande Kublay Khan, que quer ter uma ideia da grandeza e extensão da obra
imperial. As cidades, uma vez conquistadas, são mantidas no plano ideal e
administrativo do império. Por isso são "invisíveis", isto é,
atualizadas por sua descrição narrativa. O segredo de Marco Polo para manter
sua audiência imperial atenta é justamente a composição narrativa das cidades,
ou seja, o modo de contar especial do narrador. E é pela descrição narrativa
que este livro também consegue manter atento (e muito) o leitor. Qualquer
leitor, acredito.
Todas as cidades podem ter algo em comum,
mas certamente todas elas possuem algo que lhe é específico, peculiar, podendo
dessa maneira organizar as vidas de seus moradores e dirigir sua evolução. É o
que alguns arquitetos e filósofos diriam da "vida própria" de uma
cidade, soma de todas as interações de sua população. Ao que me parece, é
justamente aquilo que Marco Polo descreve ao grande Khan, mas de uma forma bem
incomum.
Walter Benjamin afirma em um de seus textos que a arte de narrar estava em vias de extinção. Ao menos no tempo em que escreveu O Narrador. Era o tempo do pós Primeira Guerra, a Grande Guerra, como se costumava dizer. Assim, "...os combatentes voltavam mudos do campo de batalha..." [1], isto é, pobres em narrativa devido ao drama, ao sofrimento, à dor que não queriam reviver, não queriam contar. Uma experiência dessa exige distanciamento para ser narrada, seja no tempo e no espaço. Mas uma vez contada, não será heroica, será trágica, pois:
"...nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadas que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela guerra de material e a experiência ética dos governantes." [2]
Então trata-se de uma interrupção da arte
de narrar que passa de pessoa a pessoa, de geração a geração.
O que Italo Calvino nos apresenta é o contrário disso. É arte de narrar, de contar uma história, no seu mais absoluto estado.
II
A obra é riquíssima em linguagem simbólica. Presta-se a muitas áreas, mas em especial pode ser a da arquitetura. Abaixo um link para uma resenha muito interessante extraída de uma revista on line. E possui um gráfico muito interessante das cidades:
https://vitruvius.com.br/index.php/revistas/read/resenhasonline/08.085/3050
III
Mais uma de arquitetura:
https://revistacult.uol.com.br/home/peruana-quer-ilustrar-cidades-invisiveis-de-calvino/
[1] BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas I. Trad. Sérgio Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994. p.197
[2] idem, p.198.
Nasceu em São Paulo, em 27/02/1962. É graduado em Ciências Sociais, História e Filosofia pela USP; licenciado em Sociologia pela mesma universidade. Possui lato sensu em língua portuguesa. Já foi professor, programador e analista de TI. Aprecia muito literatura. Atualmente é servidor público estadual.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2021
Cidade de São Paulo. Sem muito o que comemorar em 2021.
Escher - Côncavo e convexo - 1955 –
Litografia - Escher Collection, Gemeentemuseum Den Haag, The Hague, the
Netherlands © The M. C. Escher Company, the Netherlands. All rights reserved.
"São
Paulo, aberta 24 horas." Não mais. Ao
menos não para todo mundo, pois lugares seguros depois das vinte horas são
caros e o transporte por sua vez já faz algum tempo que não funciona mais após
a meia-noite. Os shoppings fecham às vinte duas. É interessante como
ainda sobra festa na cidade, em lugares fechados, "baladas". É essa a
cidade cosmopolita, que engoliu o espaço público?
"São
Paulo, onde você encontra de tudo para comer e onde há cozinha do mundo
inteiro." Não mais. Pelos mesmos motivos acima. Além
disso, a maior parte das refeições agora é via fast food ou algum
restaurante desse tipo disfarçado, como alguns mexicanos ou indianos por aí.
Existe um turismo gastronômico em São Paulo para todo tipo de bolso. Achar que
vai comer uma comida típica é outra coisa. No mesmo raciocínio podemos incluir
as comidas regionais. Nestas ainda é possível, devido à permanência de pequenas
tradições, encontrar algo de original. Mas está cada vez mais difícil. Os chefs
de cuisine já dominaram o pedaço com suas cozinhas gourmets.
E
o que encontrar em São Paulo, facilmente? Prédios de apartamentos. Modelo de
cidade que foi se construindo ao prazer (e regalo) de empreiteiros e agentes
ligados ao capital imobiliário, não seria para menos. Políticos incluídos,
claro. O resultado...? Vejamos.
-Rios
de São Paulo. Todos cobertos ou canalizados. Nenhuma novidade. Já nos
acostumamos às enchentes, que já diminuíram sim, com... mais obras! (leia-se:
enormes buracos de concreto para escoamento das águas);
-Trânsito.
Cada vez mais infernal. Todos reclamam. Ninguém quer deixar o carro em casa,
com razão, pois o transporte público... bem, sabemos. E é caro, pois é preciso
subsidiar a "eficiência" da iniciativa privada;
-Árvores.
Cada vez menos árvores. E cada vez mais espanadores de pó (palmeiras). É um dos
fatores que torna o clima de São Paulo insuportável no verão e cruel no
inverno;
-Barulho.
Muito barulho. E existe até competição de quem faz mais barulho −̶ seja com música desambiente ou com som de
carro. Nem estou me referindo aos "pancadões", alvo preferido das
reclamações em jornais; buzinas, alarmes, TVs de 12 milhões de pessoas, tudo
isso junto formam um enorme ruído de fundo altamente contrastável com o
silêncio de quando vamos para o interior, por exemplo;
-Poluição.
A eterna poluição. Qual será a cor de nossos pulmões neste momento?;
-Sujeira.
São Paulo está se especializando nisso, a despeito das empresas de limpeza
terceirizadas, muito eficientes; a sujeira dos pombos está cada vez mais difícil
de limpar, até mesmo no Metrô. Ou São Paulo acaba com os pombos ou os pombos
acabam com São Paulo;
-Muros.
Grades. Portões de ferro. Deixam a cidade maravilhosamente embelezada, não? Mas
há um escape: o grafite. Isso quando não chega algum prefeito e manda pintar
tudo de cinza; há quem goste da arquitetura paulistana, que deita o passado ao
chão todos os dias;
-Segurança.
Não sei de quem tenho mais medo.
Esse
é o conjunto de coisas que nos incitam à intolerância e à falta de civilidade
entre nós, pois não há como existir qualquer coisa assim num ambiente tão
hostil e inóspito. Mas há quem ponha a culpa no caráter do brasileiro, que,
segundo esse tipo de avaliação, "não se adapta à vida da sociedade
democrática" ou qualquer outra bobagem liberal do gênero.
Alguma
coisa de boa? Lógico que a oportunidade de emprego e de moradia são elementos
fundamentais numa cidade. Isso São Paulo já fez melhor −̶ mas ainda é a esperança de milhares de
famílias. Estas merecem a verdadeira homenagem, pois são elas que mantêm a
cidade ainda viva, fazendo circular algum sangue no corpo degradado de concreto
vertical.
Parabéns
povo de São Paulo. Aquele que trabalha mesmo. E só.
"De uma
cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a
resposta que dá às nossas perguntas."
Italo Calvino,
Cidades Invisíveis, III
Nasceu em São Paulo, em 27/02/1962. É graduado em Ciências Sociais, História e Filosofia pela USP; licenciado em Sociologia pela mesma universidade. Possui lato sensu em língua portuguesa. Já foi professor, programador e analista de TI. Aprecia muito literatura. Atualmente é servidor público estadual.
domingo, 17 de janeiro de 2021
Machismo e misoginia no Xadrez. O lugar da mulher.
Oil on oak, 27 x 35 cm - Staatliche Museen, Berlin
Retirado de: <https://www.wga.hu/cgi-bin/search.cgi?author=van+Leyden&time=any&school=any&form=any&type=any&title=&comment=&location=&from=40&max=20&format=1>
Sim, existem jogadoras de xadrez mulheres... Talvez isso não se constitua uma novidade aos apreciadores do jogo, mas certamente é uma aos não iniciados. Se bem que com a série Netflix Gambito da Rainha o negócio tenha mudado. Mas para a maior parte do público que não acompanha o esporte (sim, xadrez é um esporte) essa é uma notícia como outra qualquer.
Judit
Polgár, húngara de origem, iniciou-se desde muito cedo na atividade, estimulada
por seu pai, que acreditava que entre homens e mulheres não havia diferença
intelectual e de habilidades que justificassem superioridade de um sobre o
outro. De fato, nada a impediu de tornar-se GM (Grande Mestre) no xadrez
−̶ aos 15 anos de idade [1].
A
interessante série da Netflix apresenta, em alguns momentos (senão quase todos),
o preconceito masculino no meio enxadrístico. Mas a série é otimista, ao final,
ao apresentar os adversários como pessoas resignadas ao gênio feminino.
Na
vida real nem sempre ocorre assim. É o caso que agora se tornou clássico de
preconceito machista para com a jogadora Anna Rudolf, também húngara, ocorrido
em 2008. Vencia uma série de jogos num torneio da França naquele ano, inclusive
contra um GM francês, Christian Bauer, quando a certa altura foi acusada por
outros competidores de jogar com a ajuda de um ENGINE (máquina −̶ um computador, um software, resumindo...).
Como? Segundo seus adversários, todos letões (o francês mesmo não a acusou) ela
fazia uso do software por meio de um lipstick (batom) que permanecia em
sua mesa enquanto jogava [2]. Isso mesmo, segundo os jogadores da gloriosa
Letônia, Anna Rudolf teria recebido sinais de seu lipstick, que indicava
a melhor jogada a seguir. Como ela teria interpretado esses sinais é que seria
um grande mistério, se tudo isso não passasse de uma grande bobagem de homens
ressentidos de suas próprias deficiências. Certo é que Anna não está entre os
jogadores(as) de maior rating, mas as partidas não dependem apenas do rating
do jogador. Depende de muitas variáveis, não só preparo. Jogadores de xadrez
são conhecidos e reconhecidos pelo espírito desportivo que demonstram nas
competições. No entanto, nesta em especial muitos não quiseram cumprimentar a
adversária −̶ como vimos sempre na
série, após o final das partidas, estendendo a mão ao cumprimento. A propósito,
a série em tela parece até ter se inspirado em Anna Rudolf. Confiram.
Nada
foi provado contra Anna Rudolf, mas permaneceu um pouco o trauma. A jogadora é
conhecida pela sua vaidade feminina. Quando um poder desse invade uma seara
masculina os egos ficam ofendidos. Arranja-se sempre uma desculpa ou um modo de
desqualificar o outro lado. Para mim o que fica é um exemplo vergonhoso da
condição do macho, tão vergonhoso quanto frágil e ridícula foi a acusação
contra Anna Rudolf, inteligente, charmosamente vaidosa e... mulher.
[1]
https://pt.wikipedia.org/wiki/Judit_Polg%C3%A1r
- acesso em 17/01/2021
[2]
https://www.nytimes.com/2008/01/13/crosswords/chess/13chess.html
acesso em 17/01/2021. Mais detalhes sobre o fato numa entrevista dela com Judit
Polgár, em: https://www.theatlantic.com/family/archive/2019/09/female-chess-masters-talk-sexism-and-friendship/598003/
Para os aficcionados a partida contra Bauer pode ser vista em: https://www.youtube.com/watch?v=eye_RvGGW-Y
Nasceu em São Paulo, em 27/02/1962. É graduado em Ciências Sociais, História e Filosofia pela USP; licenciado em Sociologia pela mesma universidade. Possui lato sensu em língua portuguesa. Já foi professor, programador e analista de TI. Aprecia muito literatura. Atualmente é servidor público estadual.







