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quarta-feira, 25 de abril de 2012


FERRÉZ. Cronista de um tempo ruim. São Paulo, Selo Povo, 2009


Recentemente li o livro do Ferréz, acima indicado. Recomendo bastante, pois gostei muito. Eis sua capa:
O livro trata de vários temas, mas o principal, pelo que entendi, é o das relações sociais e a relação com a metrópole de São Paulo. Mas vai além, como justificado na introdução:

"Na verdade Ferréz teria uma vida bem mais tranquila se em seus textos não focasse a luta de classes e nem a realidade caótica brasileira" (p.6)

A coletânea de textos, publicadas em outros veículos, compõe um mosaico que retrata o cinza do concreto e a dureza do frio metal que estrutura esta cidade. E as relações sociais assim a acompanham.
Nada escapa à sua escrita: transporte lotado, denunciando uma condução feita para pobre (Cotidiano 100%; neste, ainda demonstra o desencanto com a cidade); espaços demarcados na metrópole e a segregação ("Matemática de favela"); o desenho da televisão que embota nossos pensamentos ("O Príncipe sombrio"); a dura vida do jovem em busca de trabalho e realização ("Sobreviver em São Paulo"); o consumismo que nos distrai ("Vida jovem em promoção"e "Sobre pássaros e lobos"); o preconceito nos filmes ("Assistindo e sendo humilhado"); a guerra surda na cidade ("Rio de Sangue" e "Meu dia de Guerra").

A linguagem é cuidadosamente poética, em prosa; uma poesia que nos conscientiza, por seu conteúdo e nos fascina, por sua forma; uma prosa que denuncia, sim; poesia e prosa sobre o concreto duro por meio do qual são cimentadas as relações nesta cidade. Por que não repensá-las? Por que esperar para mudar? Façamos isso já. E como disse o poeta, armado com a inteligência. Dessa tem medo os políticos e vendedores de ilusões.
Não pensem que a escrita de Ferréz é pesada - pesado é só o conteúdo da denúncia. Do outro lado está alguém consciente das mazelas e batalhador por um tempo melhor, pois este, como disse, é um tempo ruim. Cabe a nós melhorarmos. Há esperança, gotas de esperança, mas há. Ler Ferréz é já obter um pouco dessa gota.

terça-feira, 13 de março de 2012

O CÍRCULO DOS MENTIROSOS


JEAN-CLAUDE CARRIÈRE
O CÍRCULO DOS MENTIROSOS. Contos Filosóficos do Mundo Inteiro. Ed. Codex.
Crítica do Livro

Reunião de histórias do mundo inteiro, como diz o título. Carrière reúne contos, fábulas, pequenas histórias e até anedotas com "sabor filosófico", isto é, que contenham uma sabedoria, um "sentido oculto". Estas histórias, na maior parte delas, não possuem um significado imediato, por isso são filosóficas. O autor fez questão de selecionar os contos sob este critério, pois:

"A história popular, contada ao pé do ouvido, sem nome de autor, não tem essa ambição a uma solidez." (p.11)

Portanto, as histórias não trazem uma solução para problemas específicos. São abertas, atemporais; e muitas e mesmas histórias perpassam várias culturas, sendo contada de modo ligeiramente diferente e adaptada. Mas a mensagem, ou melhor - o ensinamento, é basicamente o mesmo. Ensinamento, pois, não há uma mensagem explícita: o leitor é convidado a refletir, a procurar significados.
O autor ainda assinala que a reunião não contém histórias míticas. Por falta de espaço e por acomodação do relato - preferiu histórias curtas. Histórias mitológicas, contos de fadas, relatos fantásticos, são geralmente mais longos e mais obscuros. O autor preferiu com um conjunto de fábulas e contos populares curtos.
Também eliminou provérbios, por este apresentarem uma moralidade fácil e explícita. Assim, o livro representa uma criteriosa seleção de histórias que expressam a inquietação, reflexões sobre o tempo, sobre a arte de viver. São histórias sem autoria específica, e no mais das vezes pertencentes a diversas culturas, reaparecendo apenas com uma "roupa diferente". Portanto, não há uma realidade específica. São atemporais e situam-se num espaço vago da imaginação. O autor faz questão de frisar que também baniu toda erudição que pudesse exercer classificação ou catalogação, tirando o sabor da história, evidentemente.
No entanto, o conjunto é reunido sob uma sugestão de reflexão, como podemos observar pelo índice, indicando o teor das histórias. A seguir indico alguns exemplos :

I - O Mundo é o que é
II -O Mundo não é o que é
III- Se tudo talvez não passe de um sonho, que é aquele que dorme?
...
VIII - Um bom mestre pode ser útil ou inútil
...
X - Dá para ver que são muitas as armadilhas deixadas  no caminho da lógica
XI - A justiça é nossa invenção hesitante
...
XV - Rir talvez seja um fim em si mesmo
...
XVII - O tempo é nosso senhor: podemos brincar com o nosso senhor?
XVIII - Se nada pode ser separado, o além estaria em nós mesmos?
XIX - A verdade, e daí?
...

Eu destacaria, no geral, os contos de filosofia Zen. São os que mais obedecem - no meu entendimento - ao critério do autor: são abertos, de significado amplo. São histórias que ajudam a viver, isto é, contribuem para a vida no mundo. Muitas delas também no sentido de ajudar a morrer - isto é, aceitar a morte. A maior parte delas são divertidas, pois:

"Aquele que ri aceita com mais facilidade o inaceitável e mesmo algo de insolente e obscuro." (p.16)

O leitor poderá encontrar um personagem que atravessa muitas e muitas histórias: Nasreddin Hodja. Vem do Oriente Médio, mas suas histórias são contadas por toda a parte, inclusive na tradição judaica.

Mas há de tudo um pouco. Até mesmo reflexões sobre o uso de nossa linguagem, que nos induzem a armadilhas e contradições.

Enfim, são histórias de Luz, apesar do formato metafórico e muitas vezes alegórico. São histórias saborosas, antiquíssimas, que:

"...permanece em nós todos os dias e nos leva a agir." (p.16).

Ao final do livro há uma indicação bibliográfica, mas como diz o autor, são apenas algumas pistas para uma "bibliografia impossível". "Mil e uma Noites" está indicado, além de uma vasta bibliografia em língua francesa, nacionalidade do autor.
Por fim, justifica que não transcreveu literalmente nenhum relato, pois:

"O guarda-chuva é seu, mas a chuva é de todo mundo." (p.419)

Jean-Claude Carrière trabalhou como roteirista de Luís Buñuel, além de dramaturgo e romancista.

Quando a fome vira espetáculo. Observações sobre o tema em Kafka.


KAFKA, Franz. Um Artista da Fome/A Construção. trad. Modesto Carone. São Paulo, Companhia das Letras, 1998, 2007.

Histórias da fase final de Kafka, publicadas ainda em vida, entre 1922 e 1924, em Berlim. Segundo Modesto Carone, estas histórias representam o ponto alto da narrativa kafkiana. Na novela "A Construção" (inacabada) teríamos uma espécie de ficção autobiográfica. O "Um Artista da Fome" dá nome a uma reunião de quatro contos, inclusive um de mesmo nome.


1 - Um Artista da Fome

a) "Primeira Dor". Trata-se de um trapezista que decide viver, para sempre, no trapézio:
"...tinha organizado sua vida de tal maneira, primeiro pelo esforço de perfeição, mais tarde pelo hábito que se tornou tirânico, que enquanto trabalhava na mesma empresa permanecia dia e noite no trapézio."(p. 9.).
Um dia, em viagem a uma outra cidade, momento em que não podia ficar em cima do trapézio - evidentemente - solicita ao seu empresário que instalasse mais um trapézio. Assume isso como essencial à sua vida: "Só com esta barra na mão, como é que posso viver?" (p.12). O empresário tenta consolar o artista, que chora.
Questões para pensar: o trapézio tornou-se o único significado na vida daquele artista? O trapézio "assimilou o artista"? Tornaram-se uma coisa só? Seríamos prisioneiros de nossos empreendimentos, de nossas tentativas de perfeição? A infelicidade de nunca alcançar a perfeição.

b)"Uma mulher pequena". Texto intermediário, segundo Carone, calculado para ficar entre o anterior e o próximo justamente para que os dois artistas dos contos não se tocassem. Narrativa em primeira pessoa que discursa sobre uma mulher pequena - uma ação de divórcio talvez, onde estão presentes sentimentos de ódio, desconfiança, rancor, sempre na linguagem protocolar kafkiana.

c)"Um artista da fome". Narrativa em terceira pessoa, bem ao estilo de Kafka. Trata-se da história de um artista nos tempos em que havia curiosidade sobre os homens que faziam jejum, como numa espécie de faquir. O artista vivia numa jaula, onde era observado com curiosidade. Com o tempo, perde-se o interesse nesse espetáculo e o artista vai para um circo, onde sua jaula compartilha um espaço em meio a outras feras enjauladas.

"Assim viveu muitos anos, com pequenas pausas regulares de descanso, num esplendor aparente, respeitado pelo mundo mas, apesar disso, a maior parte do tempo num estado de humor melancólico, que se tornava cada vez mais sombrio porque ninguém conseguia levá-lo a sério." (p. 29).

O artista vai "minguando", tentando levar sua arte até o fim, até que um dia o inspetor manda limpar a jaula, enterrando o artista junto com a palha. Na jaula colocam uma jovem pantera, que:

"Nada lhe faltava. O alimento de que gostava, os vigilantes traziam sem pensar muito; nem da liberdade ela parecia sentir falta: aquele corpo nobre, provido até estourar de tudo o que era necessário, dava a impressão de carregar consigo a própria liberdade; ela parecia estar escondida em algum lugar das sua mandíbulas." (p.36).

Ninguém levava a sério o artista da fome, mas sim com relação à fera. As pessoas achavam que ele era uma fraude - mas só o artista da fome sabia da fome que passava, e gostava disso, tinha orgulho disso; mas só ele assim o sabia: que o que fazia era autêntico.
Questões para pensar: o espetáculo humano só é admirável enquanto visto no seu aspecto miserável? O artista era admirado enquanto acreditavam que passava fome; as feras são admiradas porque são belas e comem bem. Admira-se a "liberdade" do espírito da fera em sua jaula.

d)"Josefina, a Cantora - ou O Povo dos Camundongos". Todos admiram o canto de Josefina, mas não se sabe bem se é um canto mesmo. E também não se sabe se o povo está entregue a Josefina pelo seu canto ou por ela mesma. O povo segue Josefina por seu canto ou por ela? Este conto, que assume uma forma textual cíclica,  é parecido com a novela "A Construção", em que também a forma cíclica fica patente. E na verdade acredito que ambos formam uma composição. Ambos são em primeira pessoa. Segue um trecho, a fim de dar conta o que afirmamos:

"O que impele o povo a se esforçar tanto por Josefina? A resposta a esta pergunta não é mais fácil do que a relativa ao seu canto - com a qual certamente está relacionada. Seria possível riscá-la e fundi-la com a segunda, se coubesse afirmar, por exemplo, que o povo está entregue incondicionalmente a Josefina em virtude do canto" (p.43).
"Que Josefina seja poupada de saber que o fato de a escutarmos é uma prova contra seu canto" (p.47).
"O assobio é a língua do nosso povo, só que alguns assobiam a vida inteira e não o sabem; aqui porém o assobio está liberado das cadeias da vida cotidiana e nos liberta também por um curto espaço de tempo." (p. 51)
"O povo a ouve e segue em frente. Embora fácil de comover, este povo às vezes não se deixa absolutamente tocar." (p.53)

Segundo Modesto Carone, é lícito imaginar, já que o período assim o permite, que este conto represente as angústias do escritor com relação a ascensão do nazismo, assim como o próximo, "A Construção" (p.112, 113).
Reflexões para o conto de Josefina, a Cantora. Como metáfora para a arte - a utilidade e a necessidade, ao mesmo tempo inútil e inessencial. Essencial e inecessário: essencial ao espírito, inecessário à matéria, à reprodução física simplesmente. Aqui os ratos são uma metáfora, aliás, metáfora da metáfora humana. Quando Josefina desapareceu, quase todos - ou todos - se esqueceram dela; sua existência tornou-se apenas uma vaga lembrança - uma pausa, diminuta, na luta da vida e pela vida. Prova de que seu canto não era essencial, mas muito embora reivindicado sempre, e sempre que ele faltava, assim era sentido. É a grande contradição da vida - a oposição entre trabalho e arte, entre o útil e o agradável, entre o essencial e o supérfluo. Com a morte da cantora, a morte da arte. Resta apenas o trabalho e a pequenez do indivíduo, diluído na multidão, um número, uma estatística, um ponto indistinto no gráfico.


2 - A Construção

Novela inacabada de Kafka, segundo Modesto Carone, mas pode ser apreciada como uma obra inteira. Trata-se de um animal, provavelmente uma toupeira, que abre um buraco e se enterra nele, promovendo a construção de um labirinto. O texto também é labiríntico, a exemplo de "Josefina", mas aqui fica mais característico este estilo. O animal faz questão de "mostrar" ao leitor como está e como foi feita sua obra, que em alguns momentos lhe parece com o "estado da arte" - como quando nos apresenta a praça do castelo, onde sente muita segurança. A obra foi construída para lhe dar segurança, inclusive, mas o tempo todo não consegue sentir-se muito seguro.

"...ela [a construção] está tão segura quanto algo no mundo pode ser seguro..." (p.63).
"Pois que segurança é essa que observo aqui? Posso, depois das experiências que realizo aqui fora, avaliar o perigo que corro dentro da construção?" (p.76).
"E com isso me perco em reflexões técnicas, começo de novo a sonhar meu sonho de uma construção absolutamente perfeita, o que me acalma um pouco: de olhos fechados vejo com encanto possibilidades de construção claras e menos claras para entrar e sair sem ser notado." (p.81).

O animal busca a segurança máxima por meio de uma construção sólida. Mas com o decorrer do tempo, vistoriando sua obra, vê que a coisa não está tão bem assim. Vislumbra falhas, mas não consegue achar uma solução para elas.

"Se eu tivesse feito a construção apenas para a segurança da minha vida, na verdade não estaria fraudado, mas a relação entre o trabalho monstruoso e a garantia efetiva, pelo menos até onde sou capaz de senti-la e até onde posso me beneficiar dela, não seria para mim uma relação favorável. " (p. 82).

Ou seja, o esforço para preservar a vida pode não ser proporcional ao benefício, antes, desvantajoso, desnecessário e dispendioso. Vale mais a pena lutar corajosamente que esconder-se? Difícil responder. No entanto, o medo leva a esse esforço descomunal pela segurança.

"Mas se é assim, porque então hesito, porque temo o intruso mais que a possibilidade de não rever nunca mais minha construção?" (p.83).

Segundo Carone, esta é a grande ficção autobiográfica de Kafka na sua fase terminal. O autor se vê num labirinto, sem saída segura dele. A morte espreita, daí talvez a metáfora do animal debaixo da terra. O personagem se enterra num buraco e vive a ilusão da segurança, pois o inimigo espreita por ali mesmo - é quando o animal passa a ouvir um zumbido, que não vem de cima, mas de toda a parte. Um outro animal que vai aparecer de repente é esperado, ansiosa e decisivamente.




Reflexão final.
Apontadas as particularidades dos contos por Carone, somadas a algumas indicativas que aqui esbocei, resta ainda uma final, contemplando toda a obra do autor, mas em especial "A Construção". Num mundo de alienação,  o vencedor individual não se reconhece na sua vitória, já que se torna escravo dela. Esta conclusão foi retirada da obra de Sartre, em seu "Questão de Método".  Seu mérito é apontar  na direção de uma espécie de denominador comum de todas as obras de Kafka. De fato, o animal de "A Construção" sente orgulho de sua obra, considera-a quase perfeita, mas nunca tem certeza de sua total segurança e é escravo dela. Ao final, valeu tanto esforço?, pergunta-se e não consegue uma resposta para si próprio. Não consegue, apesar do esforço, enxergar-se na obra. As reflexões do animal giram o tempo todo em torno deste tema. A alienação fica manifesta quando observamos o animal tentando imaginar a em que consiste o perigo lá fora, mas que num dado momento revela-se que ele pode estar ali dentro mesmo, oculto todo o tempo, audível apenas por um ruído. O animal fica enredado em seu labirinto, obra de sua própria verve, à espera de uma batalha mortífera com um suposto inimigo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012


KAFKA, Franz. Sonhos. São Paulo, Iluminuras, 2008.


Publicação do diário de sonhos de Kafka, incluindo cartas aos conhecidos - Max Brod e Felix Weltsch, seus amigos; Felice Bauer, sua noiva; e a Milena Jesenská, sua virtual amante. Tradução de Ricardo F. Henrique e prefácio de Luis Gusmán.
Teatros, labirintos, ruas, edifícios, seu pai, seus amigos, sua noiva e sua enamorada, Milena, estão contemplados nos sonhos de Kafka. Seu sono é difícil, como ele mesmo o diz, por isso seus sonhos são muitos, lembrados com detalhes. Interessante a importância que dá ao sonho o insone Kafka.
A estrutura labiríntica é recorrente e até podemos perceber a influência ou relação sobre a sua obra. Como ele mesmo diz à p. 86:
"O impulso de representar minha vida onírica deslocou todo o resto para um plano secundário, que definhou assustadoramente e não pára de definhar".
Esta não é uma passagem de um sonho, mas uma afirmação em seu diário. Se o sonho se tornou o principal, como ele diz, é porque o restante não vai bem...inclusive sua literatura. Sabemos que Kafka teve problemas com a publicação de seus livros e com certeza isso reflete a exigência do autor para com sua própria obra. Todo o resto deve refletir também a vida em geral. No caso, o texto é de 1914, ano da Grande Guerra. Texto escrito em agosto, quando as mobilizações da Guerra começam. Parece que sonhar se torna mais interessante que a vida.
Os fragmentos de escritos, aqui publicados sem data, mas provavelmente após 1922, expressam sua angústia perante a morte. Reflexos de sua doença? Torna-se comum a visita à cemitérios e catacumbas, lugares escuros e ermos. Separação entre o onírico e a realidade parece ser mais difícil ainda.
Também há sonhos com a mãe nesta fase, omissa nas anteriores. O texto final sem data, nesta publicação, é muito bonito, poético, como muitos dos sonhos relatados:
"Envolve a criança nas dobras do teu manto, sonho sublime."
F.K.
Assim, para efeito didático podemos dizer o seguinte dos sonhos de Kafka:
-O sentido do onírico é profundo, portanto, poético;
-A estrutura labiríntica é recorrente, o caminho é difícil de ser percorrido, bem como a saída do labirinto;
-Apresentação espetacular - o teatro; a atenção às vezes se volta para o sonhador, mas como o elemento que está atrapalhando o andamento das coisas; por vezes há o teatro dentro do teatro;
-Alguns sonhos o cansam, deixam-no exausto;
-Admiração por Dostoievsky;
-O pai aqui nos sonhos é protetor - contrário ao que representa na sua obra;
-Sonho com pinturas;
-Sonhos com animais híbridos (asno e galgo, por exemplo);
-Sonho e realidade a se confundir, especialmente no final - "sonho escrito na carne" (L. Gusmán, p.14)

Comentário:
Disse um filósofo que se nossos sonhos fossem continuados, isto é, como na vida real - uma trama bem urdida e tecida - se eles não se desfizessem em coisas aparentemente sem sentido, não haveria diferença nenhuma entre sonho e realidade.
A vida de Kafka não foi nenhum sonho, diga-se. O trabalho burocrático o atormentava e a vida de escritor era difícil de progredir. Seus sonhos, claro, expressam toda essa angústia, mas também sua aspiração por um mundo de arte. O fato de anotar seus sonhos e, ainda, comentá-los em carta aos seus amigos, é revelador desse mundo ideal onírico - que buscava na realidade, mas expressava a dureza desta na ficção. Enfim, temos o que conhecemos de Kafka: a dura realidade expressa pelo sonho - seja ele doce ou pesadelo. Em seus escritos prevaleceu sempre o pesadelo. Não me lembro de nenhum conto "leve", isto é, no sentido filosófico da coisa - algo suave que se nos insinua e nos envolve. Suas fábulas sempre trazem reflexões, sim, mas as situações sempre são penosas ou angustiantes. Mas não se trata daquela "angústia de estar no mundo" sartreana, em que ao indivíduo, no final, cabe a escolha. No mundo de Kafka não há escolhas, tudo - ou quase tudo - é contingente. Cabe apenas o recurso, o apelo ao acaso - torcer para que nada piore, apenas. Tenho a impressão que Kafka via o mundo como uma enorme burocracia ("o mundo administrado"), por onde nossa conduta só podia mesmo ser protocolar, formal, impessoal. Não admira que atribuísse tanta importância aos seus sonhos.
Se a vida é sonho, como dizia o poeta Pedro Calderón de la Barca, em Kafka isso parece ser verdade. Mas não é um sonho doce. E se sonho pode se tornar fuga da dura realidade, então compreende-se melhor a importância que o escritor dava a eles.
Reflexão: sonhe acordado, mas lembre de Shakespeare:
"Somos feitos da mesma substância de que são feitos os sonhos, e nossa curta existência está contida no período de um sono" (in: A tempestade, Ato IV, Cena I)
Sugestão de filme: assistam ao excelente “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”, de Michel Gondry

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O melhor futebol. Lembranças de 1982.

Sócrates dizia insistentemente que o futebol brasileiro copiou o que havia de pior no futebol europeu e que pagamos caro por abandonar o nosso estilo. Muitos não concordam com isso e nem vão lembrar quando "abandonamos" nosso modelo e estilo: foi a partir de 1982, quando na Copa do Mundo perdemos um jogo classificatório para a Itália. A partir de então praticamente todos os clubes brasileiros adotaram o modelo europeu de jogo, especialmente o italiano: marcação homem a homem, concentração de jogo no meio campo - não com armadores, mas com predomínio de volantes de contenção. O jogo tático estabeleceu-se em torno de destruir as jogadas do adversário. A estratégia girou em torno das jogadas de contra-ataque. Houve exceções louváveis durante esses anos todos: o próprio Telê Santana, cujo time perdeu para aquela seleção italiana, mas que ganhou importantes títulos como o São Paulo Futebol Clube, jogando um futebol espetacular.
Enfim, adotamos um estilo de jogo que contrariou toda nossa tradição futebolística: o toque de bola curto, passes bem acertados e bem calibrados, jogo ofensivo, meio campo de armação, sem volantes de contenção - uma posição que ficava mais para a zaga; marcação por zona, não homem a homem.
O que eu chamo de estilo italiano de futebol, largamente adotado aqui pelos clubes brasileiros, degenerou na maioria das vezes para um futebol tecnicamente de baixíssima qualidade, muitas vezes medrosamente retrancado e truculento, devido à forte ênfase na chamada contenção no meio de campo. Afora a correria, com forte acento no "futebol força", onde se destacavam cada vez mais jogadores atléticos, musculosos, com pouco uso da coordenação fina e mais inteligente de um Sócrates ou de um Zico.
O último jogo do mundial de clubes, entre o Barcelona e o Santos, foi emblemático. O Barcelona constitui uma referência e um paradigma de jogo há muito tempo, mas nós insistimos sempre em torcer o nariz para isso, teimando no jogo feio e truncado.
Nos últimos anos, melhor, nas últimas décadas, o futebol - mesmo a nível mundial - evoluiu para uma violência absurda; os jogadores praticam quase rugby ao invés de bom futebol. Isso está expresso na falácia que se pronuncia sempre nos meios futebolísticos: "futebol é um esporte de contato". Nada mais falso. Vide o estilo de jogo do Barcelona - quase não há contato físico, apenas pernas e jogo bonito. Predomina o toque de bola, a troca de passes constante, a ampla movimentação - sem correria. Apenas a bola corre.
Por fim, valeu a "aula de futebol" do Barcelona? Apenas o tempo dirá, mas eu arrisco a dizer que não: os interesses, com base nesse futebol que se pratica atualmente, estão muito bem estabelecidos. Ninguém vai querer mudar a estrutura milionária que está dando lucros. Nem tanto para os clubes, mas com certeza para os dirigentes e aos agentes empresariais, sem falar em alguns jornalistas.No mais, para mim foi sim, uma verdadeira aula de futebol, como praticávamos em outros tempos...

sábado, 16 de abril de 2011

Um dia de lixo.Na USP.



Meus Caros,
A carta abaixo foi encaminhada à Diretoria da FFLCH, como manifestação de desapreço. A razão está exposta nela e se refere, evidentemente, à questão do lixo e da condução das ações em torno dela, ações tomadas pela direção. Infelizmente, não sei como um fato assim (a continuidade das aulas naquela sujeira) teve respaldo junto aos docentes. Espero que não todos. Segue a carta.

Para quem não se recorda, foi um dia em que o lixo foi espalhado supostamente por alunos e as dependências e salas de aula ficaram totalmente imundas, sem condições de permanência.



Manifestação de Desapreço



São Paulo, Sexta-feira, 15 de abril de 2011



"No final das contas, o valor de um Estado é o valor dos indivíduos que o compõem"
(J.S. Mill, in: Sobre a Liberdade)


Venho por meio desta, no exercício regular do direito e do de cidadão, manifestar meu desapreço junto a esta Diretoria, no que diz respeito à condução do problema da sujeira, ocorrido nesta última semana nesta Faculdade.

Considerando que foi uma atitude sábia e sensata, porém óbvia, de suspender as aulas na segunda-feira, dia 11 do corrente, não é possível entender como coerente que fossem retomadas as aulas sem que o problema estivesse absolutamente resolvido, pois a sujeira continuava na terça - ao menos no turno da noite - com corredores intransitáveis, banheiros em situação abaixo do crítico, gerando uma situação incômoda e bastante desagradável, nunca vista por mim desde que sou aluno da renomada Faculdade.

Há que se considerar que, sim, a priori a Faculdade foi tomada pelo problema um tanto desprevenida e que não tem culpa direta pelo processo de contratação das terceirizadas. Há que se considerar também que foi lastimável a reação de alguns alunos ou mesmo do SINTUSP no que diz respeito, se forem verídicas estas versões, de atos predatórios por eles praticados, conforme nota que recebemos, por e-mail, desta mesma Faculdade.

O que ocorre, é que não caberia julgar estas ações ou com relação a elas levar em consideração no sentido de orientar qualquer tipo de reação negativa. E no meu entendimento foi extremamente desagradável e negativo para a FFLCH a manutenção das aulas naquele estado de coisas - diga a sujeira. Independente de qualquer ação ou reação por parte dessa nominada minoria, a Faculdade não deveria ter mantido as aulas. Não seria isso que prejudicaria o curso, o cronograma ou qualquer outra exigência burocrática da vida acadêmica. Saímos sim, todos piores da experiência, pois demonstramos que nenhum dos lados está preparado para aquilo que o saudoso professor Florestan dizia acerca dos "padrões de civilização" que a Universidade oferece [1] e de fato cria.

No entanto, parece que a diretoria da FFLCH resolveu jogar com "posição-força", mantendo as aulas a todo custo, fazendo assim justamente o que deveria recusar - aquilo que talvez essa nominada minoria mais desejasse: medir forças num jogo político. Se fosse realmente contra as "tais manobras", simplesmente desprezaria esta minoria ou o sindicato, ou seja lá quem for. Tentaria sensibilizar melhor e se aproximar da imensa maioria, na qual eu me incluo, e que assiste a todo esse espetáculo aparvalhadamente. Pois acredito que seja insuficiente apenas informar os discentes com e-mails, no mais pouco esclarecedores, pois embora esse método dê celeridade aos atos administrativos, não se deve com isso presumir que esteja subsumido o princípio. Pois ao final, retomando Mill, a Faculdade é composta de pessoas, de seres humanos com vontade própria e que podem e devem, sim, tomar iniciativas positivas e não reativas. Talvez a Faculdade devesse consultar os alunos, não sei que forma naquele momento, talvez devesse eleger um porta-voz da direção para falar nas classes, na terça. Eu não sei. O que não se pode admitir é que a maioria fique excluída, ou desinformada do que realmente está acontecendo, pois, repito, não será um mero e-mail que esclarecerá tudo devidamente, a não ser que se queira esconder sob o manto obscuro e impessoal da burocracia o jogo político que esteja por trás de tudo. Por outro lado, se houve realmente alguma "manobra" política, a fim de degradar a imagem da instituição, então essa suposta minoria conseguiu seu intento, pois eu duvido que o conhecimento do fato permaneça restrito somente aos nossos círculos. Bem sabemos como a imprensa sabe explorar, em desfavor da imagem da instituição, qualquer assunto dessa natureza. Portanto, cabe no futuro pensar com a razão fria e não com as paixões exaltadas ou rancores acumulados. Com toda a sinceridade, no que diz respeito à decisão tomada, não é possível intuir outra coisa.

Em resumo, sem querer - nem de longe - atribuir culpa a esta gloriosa Faculdade por quaisquer danos materiais ou morais ocorridos no evento, é apenas por isso que manifesto meu desapreço: pela decisão da continuidade das aulas num contexto de total insalubridade e desconforto, já não bastassem os do dia a dia, mas sobre os quais estes não convém falar agora.

Quero ainda esclarecer que não pertenço a nenhum partido, nem uma ala política - dentro ou fora da Universidade. Falo por minha única conta. Sou apenas um cidadão que entende, acima de tudo, que a Universidade de São Paulo não é gratuita; que ninguém está fazendo um favor em me manter nela sem investir dinheiro, pois ela é mantida com impostos, os quais são pagos também por minha pessoa. Sou apenas um cidadão que entende, também - e talvez eu devesse falar em nome da imensa e aparvalhada maioria de alunos, mas não o farei, pois nada me foi outorgado neste sentido - e inclusive, que estou exercendo um direito, um direito individual, por certo, mas parece este já estar esquecido entre nós: o de expressar convenientemente sua opinião pessoal, bem como sua indignação.

Espero assim, com esta peça, que tem apenas um sentido doutrinário, ter contribuído para que esta Faculdade - a gloriosa FFLCH e da qual ainda me orgulho de pertencer - repense decisões futuras, levando em conta a maioria e não reagindo a uma suposta minoria; agindo com coerência e ganhando assim legitimidade junto aos alunos todos. Afinal de contas, é nos departamentos da FFLCH que estão reunidas, senão apenas em qualidade - mas com certeza em número, as melhores cabeças pensantes deste país, sem desmerecer qualquer outra instituição. Faz-se urgente nos (re)conscientizarmos disso e realizar ações merecedoras desse crédito, e não deixar que uma minoria o subtraia.

1 - Conf. aula inaugural em 1985, abrindo o curso de Ciências Sociais daquele ano, do qual fui aluno

sábado, 17 de janeiro de 2009

Moby Dick e a Crise

"E só eu escapei para te contar"


O capitão Ahab e sua tripulação ─ incluindo o marinheiro Ishmael e o arpoador Queequeeg ─ está empreendendo uma nova viagem. Trata-se do navio baleeiro Pequod, que singrará os mares em busca de baleias (cachalotes). Ocorre que Ahab está imbuído de um novo motivo: a vingança. Trata-se de caçar uma baleia em especial, Moby Dick, que arrancou-lhe a perna em outra empreitada.
─ Morte a Moby Dick!
Bradou Ahab, oferecendo ainda um dobrão de ouro espanhol a quem avistasse primeiro o maldito cachalote.
A caçada se estende do Atlântico ao Pacífico, passando pelo Índico. O capitão está alucinado e só pensa na vingança. Encontra pelo caminho vários navios relatando o fracasso na caçada, inclusive um que está voltando para casa avariado, se não me engano. Mas Ahab está insano, obstinadamente convencido a levar às últimas seu plano. Coloca toda a tripulação em prol disso, que não mede esforços ─ seja por temor ao capitão, seja perfunctoriamente nas suas obrigações ─ para tal tarefa.
O resultado é mais ou menos previsível, considerando-se conhecer Moby Dick, baleia velha, de cabeça enrrugada, de tantos navios em que bateu e levou à pique...
E este é o destino do Pequod.

Essa sinopse de Moby Dick, para quem não conhece a história, é muito sugestiva para esses nossos tempos de crise. Permitam-me a alegoria.

O Capitão Ahab passa anos, com sua tripulação, perseguindo Moby-Dick. A obstinação de um só homem torna-se também a dos demais, mas não porque a tripulação mesmo queira. Uns obedecem, como dissemos, pelo medo (Ahab é uma figura temível); outros pelo dinheiro (a oferta do dobrão de ouro); outros tantos simplesmente pela obrigação de seguir em seu trabalho. E são a maioria. Ninguém se salvou.

Bem, e a crise? Eu digo a vocês.
Nestes tempos de incertezas perceberemos o quanto inútil é seguir caçando algo como Moby Dick. Quem é Moby Dick? Uma baleia, um cachalote branco. Um animal velho, de velha estirpe. Vai aonde quer, e os homens o seguem. Moby Dick é o dobrão de ouro. Moby Dick torna-se cobiça. Moby Dick é a morte à espreita. Moby Dick representa um tesouro, mas para um — Ahab — é tudo. É vingança. Seguimos Ahab, que persegue Moby Dick. Perseguimos a baleia, obedecemos Ahab. Ahab não nos revela totalmente seu desígnio, mas este vai se revelando por si mesmo. Seguimos Ahab, mas um pouco antes da morte tudo se revela: não temos nada. Moby Dick não pode ser caçada; Moby Dick é inalcançável; ninguém pode obter o dobrão à custa de Moby Dick; Moby Dick representa ainda o navio afundado, toda nossa vida levada por uma empreitada inútil. E essa revelação toda apenas momentos antes de nossa vida ceifada.

Moby Dick é o sonho, a ilusão do ouro. Moby Dick é a ilusão do progresso, de busca de um PIB crescente, de mais riqueza, que nunca nos favorece. Também é o sonho de loucos, de obstinados como Ahab. O sonho de vingança de Ahab nada mais é que uma megalomania: a de tentar igualar-se ao gigante, ao Leviatã. Mas Ahab é só um homem. Somos todos homens, mais mortais que a baleia, que seguiu seu caminho, após a destruição geral...

“[...] envolto pela bandeira de Ahab, afundou com o navio, que, como Satã, não quis descer até o inferno sem arrastar consigo uma parte vigorosa do céu, que assim lhe servisse de elmo.
Pequenas aves voavam agora gritando sobre o golfo ainda escancarado; uma rebentação branca se abateu contra os seus lados íngremes; e então tudo desabou e o grande sudário do mar voltou a rolar como rolava há cinco mil anos.”

Perdemos o navio. Perdemos assim também o Planeta, consumido pelo definhamento das florestas, do ar, dos rios, arrastados pela nossa obstinação, nossa sede de progresso rápido; idéias vendidas a nós a alto custo e as quais fazemos descer goela abaixo muito facilmente.

E Ahab, afinal, quem é essa figura que tanto nos impressiona e nos mete medo? Ahab está em qualquer lugar, está em cada um de nós. Todos nós um dia fomos Ahab, na verdade todos os dias somos Ahab; incitamos uns aos outros a perseguir Moby Dick. Nos imbuímos daquela loucura, daquela razão impensada de nos tornarmos algo muito grande, além do que realmente podemos ser. Convocamos nossos semelhantes a perseguir um progresso tão inútil quanto ilusório e iludimo-nos todos com isso. E o tempo, bem como nossa vida, vai fluindo, esvaindo-se nos detalhes dos planos, das metas, das eficiências técnicas, rastreadas por nossos loucos governantes.
Mas no íntimo queremos todos, cada um por si, entesourar os resultados de tal busca. Quem não quer desfrutar o máximo do progresso? Todos querem asfalto na sua rua e ninguém quer se culpar pelas enchentes.
Procure bem. Ahab estará em você, mas não se iluda. Estará em todos os outros também.


Para ler Moby Dick:

Moby Dick, ou, A Baleia, Herman Melville, Ed. Cosacnaify, 2008, São Paulo-SP — tradução de Irene Hirsh e Alexandre Barbosa de Souza

Moby Dick, Herman Melville, Ed. Abril Cultural, 1980, São Paulo-SP — tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos

Moby Dick, Herman Melville, Dover Giant Thrift Editions, 2003, Mineola, New York

Quadrinhos:
Moby Dick, Herman Melville, Companhia Editora Nacional, Col. Quadrinhos Nacional, 2008, São Paulo-SP — adaptação de Sophie Furse e ilustrações de Penko Gelev

Adaptações:
Moby Dick, Herman Melville, Ediouro, 1970, Rio de Janeiro — tradução e adaptação de Carlos Heitor Cony